domingo, 20 de outubro de 2019

sento pra pensar ao meio dia
na sombra do juazeiro que há em minha memória
não que me tenha faltado chuva,
mas talvez estratégias de armazenamento d'água
os açudes de dentro de mim
são ultrapassadas artimanhas de dominação,
num quero mais isso não.

quero ter estoque de chorar
de água limpa boa,
assim pra cada lote da memória
construirei uma cisterna bonita
de placa
autonomia pras minhas lembranças
beber, chorar, tomar banho.

tem lembrança que gosta de escovar os dentes
ainda que eu num goste
tenho de respeitar, num é? deixar livre
quer escovar, escova

digo aos esquecimentos, tudo vai melhorar
nada de açude pra evaporar disputar com bicho cabrito bicho vaca cagar memória que mora perto se beneficiar

esqueço e lembro
lembro e esqueço
sonho e lembro
esqueço e sonho
mastigo uma folha de juá
e já num adoeço mais

sábado, 5 de outubro de 2019

nim

o amor é um berço de ouro
e por ter nascido num
me sinto forte
cheia de
mim
não tenho medo da morte,
na rua ando tranquila
tomando banho de chuva
ou tomando banho de sol
não vou conjurando doença
ou qualquer outra sentença
e aí que se me lembro
separo minutos do dia
só pra pensar na morte
assim posso ir me acostumando
com os inícios
com as partidas as entradas e as saídas
não tenho medo da morte,
porque também sou bicho nato
mas só num me acostumo
com porcaria de assassinato
aí tenho medo e tem dia que a noite até rezo choro sei lá o que
de morte matada tenho medo
de arma tenho medo
de privação de liberdade tenho medo
hoje eu vou dormir tranquila
sem ter pesadelo com polícia
e amanhã vou acordar calma
sem ter medo da vida