quarta-feira, 24 de novembro de 2021

a noite veio uma mão arrancar uma vértebra de minha coluna
pedi alto que não tirasse 
ainda quero te ver muitas vezes
tantas miudezas 
no intervalo de algumas horas
quem diria que com tão pouca surpresa
vai acontecendo o inesperado
já adivinhado e profetizado por muitos ontens
lágrimas de beber a molhar os dias
encher os baldes e dar descargas

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

agradeço

p/ todes que amo

aí que me dá uma vontade de dizer que te amo
não que eu nunca tenha o feito
já fiz e muito o faço!
tu logo tu 
que nunca nunquinha
vai poder me dar aquilo que almejo 
fantasio desejo
não um eu te amo
num é isso não
amor é bicho fácil de se dar 
ouso dizer até de acontecer
mas aquilo outro lá
que ainda não tem nome pra mim
isso tu nunca vai dar 
e mesmo assim 
consciente enfim do que me permeia
me vem essa vontade
que felicidade curiosa 
ter coragem de atravessar as portas
é por isso que quando vem essa vontade danada
eu digo que te amo 
porque sei
que paralém da minha fantasia
há alguém
olho pra esse alguém e me reconheço:
eu não sou tu! pois bem

te amo porque me reconheço


e meu coração acerola



poeira fina por toda casa
por toda rua
sonhar subindo altas escadas
cedo acordar varrer a calçada
o tempo cortando a pele formando novas rugas
as primeiras de todas as outras que um dia virão
um toque perto do peito
escuto fundo sentir no pelo
o que mata, eu semente pequenina de mato
outros pés nascendo perto
do meu pé douvido
a palma a planta do pé
penso
longe ainda tanta coisa cabe
na distâncias das cidades
mas o entendimento é esse
que o fruto do caju é o cajueiro
e o do cajueiro, a castanha
nada de extraordinário
se meu coração acerola
vermelhinha a bater
na lembrança de um sabor e outro
toque doce-amargo

terça-feira, 2 de novembro de 2021

como um desejo ao contrário 
busco a palavra
cavo um buraco atrás das pistas
fósseis de delírios passados
minhas mãos aprendizes do tempo
fecho os olhos pra sentir o sol atravessando meu corpo
é desejo de vida o que os pés sentem ao tocar a terra
ao assentar na pedra dilapidada pelo vento
pelas fogueiras dos festejos
te escrevi naquele dia 
te escrevo tantos são os dias
tu que sou eu 
eu que as vezes não sou tu 
engraçado ver o ritmo das plantas
dançando lentas agitadas paradas
crescendo ou deixando de crescer
tem uma hora que chega atingiu o ponto
que delícia é atingir o ponto
mas ser bicho gente é nunca chegar
sempre ir sempre ir 
e tem hora de sentar e tem hora de deitar
sonhar todos os sonhos impossíveis 
realizar possibilidades não sonhadas também tem o valor de fruta no pé madura
docinha gostosa
me lambuzo só de pensar 
plantar feijão e ver crescer os caroço colher cozinhar e comer
isso é desejo primeiro 
desejo fundador
por a boca sentir o gosto comer 
encher o bucho 
e aí então saber o que fazer com as mãos
os buracos que valem e os buracos que não valem
cavo pra achar a palavra
não acho
boto uma semente rasinha 
5cm da superfície
o simples é tão grande me assusto
o extraordinário é qualquer coisa 
não me espanto 
o desejo ao contrário as vezes é só desejo
que tem medo de ser 
acho graça
essa coisa que é gente 
gente é assim dorme pra sonhar
e quando acorda não lembra 
e se lembra depois esquece
e se não esquece não entende
e se entende
vira ao contrário
acho graça
semeio no raso a semente pra vingar 
pensando e se 
amanhã chover 
pode ser que 
o barulho dos pingos da chuva 
caindo na bacia 
me lembrem o que eu não deveria ter me esquecido
ter me escondido 
tomara


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

não deixar assorear os cílios dos rios de nossa memória 
juntar as sementes planejar o novo
inventar um futuro onde possamos existir
com vida muita comida muita saliva
guardar as sementes das nossas plantas nativas
guardar as sementes de nossas paixões
guardar as sementes de cabra de carneiro de galinha
guardar as sementes de nossos sonhos
o que há de vir precisa ser contextualizado 
com o que pulsa dentro e fora dessas abertas veias de nossa terra
plantaremos água
e beberemos com as mãos os dias que virão
fartos de saúde de gente de trabalho
haverá ainda muita mágoa muita mágoa
cuidada também nos rios de nossa memória
pra que não volte por trás nos amarrando as pernas
para que saibamos localizar nossos sentidos
os matos nos indicarão significados 
brotarão tantos olhos dáguas das sementes plantadas
que não nos sentiremos desguardados
comer semente germinada assistindo o por do sol
plantar mundos novos também por dentro
avisando a microbiota da barriga
que agora vai ser assim
com muita vida muita comida muita saliva
 
 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

estive por muito tempo a procura do encontro
desejei como quem acredita em deus 
 
aí que
me encontro
comigo
e me é 
desconfortável
o que vejo

me rejeito

mais uma vez me encontro
em busca 
de mim 

não tem fim
a busca-&-ser eu

serei

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

as convenções românticas me dão preguiça

me interessa mais as relações várias que teço no tempo
olhar no olho e dizer que amo sem medo sem projeções mil
é também uma escolha minha essa preguiça
porque num gosto de ser monotemática e as paixões geralmente são assim num são? já disse isso outra vez...

toda quarta vou na feira e trago um mói de couve pra minha vizinha porque gosto dela tanto e sou tão grata pelo carinho que recebo
que hoje me peguei pensando 
possivelmente se eu canalizasse meu afeto minha vitalidade pra pensar amar desejar uma só pessoa 
eu desperdiçaria tanto querer massa por aí

daí que digo pra mim-adolescente quando me sentia um peixe dentro do aquário
é uma escolha que agora faço
e acho que tamo bem assim :)

e se vez ou outra sinto vontade de me envolver romanticamente com alguém certamente não é pra jogar esse jogo de propriedade latifúndio 

eu boto fé que uma semente de girassol depois que germina cresce e bota flor gera mais ou menos umas 60/100 sementes.... se intera?
aprendamos então

terça-feira, 7 de setembro de 2021

hoje minha vó morreu
minutos antes fui ao mercado
ainda tava lá quando aconteceu
me sentia desconexa fora de mim
não sentia os pés sete de setembro
depois fiquei me perguntando se essa sensação
em meu corpo era porque eu já tava sentindo sua partida
bem, talvez
mas há também o preço das comidas, a falta de água, e o próprio sete de setembro
no mercado comprei dois caju
ganhei mais um
fazia tempo que não comia
quando cheguei em casa soube
minha vó mãe de meu pai morreu
não acendi vela pra ela porque ela não era chegada nessas coisas
respeitei
chorei um pouco
lembrei de coisa boa e de coisa ruim
me culpei também por não lembrar se ela gostava de caju
mas eu tenho quase certeza que sim
que ela gostava muito de caju muito mesmo
mas bem, isso é só uma hipótese
até recordei ou inventei aquela memória a gente chupando caju junta
então peguei meus caju e chupei pensando em minha vó
que nunca mais verei
acho doido isso
também nunca mais comerei o seu feijão
minha vó fazia a comida que eu acho a mais gostosa do mundo
ouvi dizer que no luto se incorpora algo da pessoa ou daquilo que se foi
eu espero herdar o jeito de fazer aquele feijão
desejo que ninguém mais me trate como minha vó me tratou, que eu não permita isso
mas desejo também que muitas pessoas ainda façam comidas gostosas pra mim como minha vó fez, com muito carinho, eu sei
minha vó gostava muito de me ver comer, então pra ela hoje, depois de sua morte, eu chupei caju



domingo, 11 de julho de 2021

tenho medo de sem querer colocar minha mão dentro do liquidificador ligado
igual aquele dia que numa reunião de trabalho grampeei meus dedos
sonho querendo botar tela nas janelas de um alto apartamento 
tive medo de sem querer cair lá de cima enquanto eu assistia o nascer do sol deitada na janela
do sei lá, décimo andar
 vou me enganando até acreditar que sou outra coisa
te engano também
finjo esquecer 
finjo até me lembrar
tem pensamento que só aparece no meio de alguma estrada
acho que só sei viver assim
se for com saudade
coisa que minha criança me ensina 
aceitar a distância
como parte do caminho
 
o mundo é injusto
às vezes acho que não conseguiremos mais 
sementes geneticamente modificadas são programadas pra não se reproduzirem
frutos inférteis a lambuzar nossa boca
por sorte tem pé de milho que naturalmente dá dois sabugo
jadiel diria dois milho.amor.total de caroços-dimensão
e eu concordo
mesmo que em segredo devemos guardar nossas sementes sagradas
na paraíba se chama semente da paixão
essas coisas todas que não podemos deixar a monocultura de tudo levar

tento reflorestar meu pensamento
entende?
tarefa desafiante em meio a tanta terra que eles dessertificaram
nos meus delírios
um dia verei flores de xique xique a desabrochar
avisando da chuva
e não temerei 
espetar os dedos

segunda-feira, 5 de julho de 2021

me dito

do alto de uma enxaqueca 

cercada de não ditos

medito

tentando alcançar além das cercas

tudo isso é tão esquisito...






sábado, 19 de junho de 2021

como caça e caçador


 dentro de mim




 na mata ando descalça

só pra aumentar a proximidade

nossa comunicação

explico aos que tentam me proteger com xinelos

eu sei pisar

sem medo de espinho

porque esses fazem parte

e quando as urtigas me tocam 

não acho ruim 

se penso nelas nesse momento

é no gostoso caldo

que posso fazer

.urticante

me sinto quebrada
letras que não formam palavras
na ponta de minha língua


domingo, 6 de junho de 2021

registro triste

aos 2/3 anos eu morava na vila da bosta, com minha mãe e meu irmão. eu gostava de morar lá, também porque tinha uma amiga muito muito legal. ela era mais velha que eu, então lembro de a admirar muito, pensar quando crescer quero ser esperta assim. a gente brincava de colégio na sua cadeirinha verde. nessa época, eu ainda não estudava. ela morava na casa ao lado da minha e todo dia ela vinha pra minha casa ou eu ia pra sua.
acontece que chegou uma época que a mãe dessa minha amiga decidiu se separar e separou. mas o caba safado vivia de azucrinar a vida delas (mãe, filha e avó). num dia de sol sendo manhã ou tarde, ele foi lá na casa delas e chamou. ninguém foi atender porque já sabiam quem era. passado um tempo, ele aperreando muito, minha amiguinha foi até a área pra vê-lo através do portão e a avó foi atrás pra levá-la de volta pra dentro. aí que quando chegaram lá, ele tava armado, e matou vó e filha. assim, de tiro, na área onde a gente brincava. depois apontou pra própria cabeça e outro tiro.
depois daí há duas versões, a de que eu tava em casa com minha vó que me botou nos braços assustada e foi comigo até a rua, onde vimos toda a cena.
e na outra estava com minha mãe, que sozinha foi ver o que houve e horrorizada teve o maior cuidado pra que eu não visse nada.
bem, de fato, não tenho memórias imagéticas do ocorrido em minha lembrança. mas lembro muito do depois, em verdade às vezes acho que minha primeira amiga e seu assassinato são as primeiras memórias que tenho da vida. mas não sei, é difícil achar a ordem cronológica quando não são lineares os pensamentos e a elaboração de memórias. mas sem dúvidas foi meu primeiro contato com a morte, em que pensei, ao meu modo e idade, ativamente sobre a morte, descobrindo seu significado. lembro de sua mãe em nossa casa chorando muito nos dias que se seguiram. lembro que ganhei ruas roupas, brinquedos e a cadeirinha verde que eu tanto gostava, mas depois minha mãe devolveu a maior parte, pois não conseguia guardar o peso todo que carregavam aquelas coisas. pude ficar então só com a cadeirinha verde e sua motoca.
brinquei muito na cadeirinha verde sem minha amiga, mas era inevitável lembrar dela sempre que eu sentava naquela cadeira, lembro de às vezes pensar nunca mais vou vê-la e me perguntava por quê, era muito estranho aquilo.
depois de um tempo a mãe de minha amiga foi morar no interior pra reconstruir a vida. e nós, um ano depois, nos mudamos também, não sei se por isso ou se pela peregrinação da vida de aluguel. talvez ou dois motivos.
tenho tentado então fazer o exercício de elaborar sobre essa memória. quero guardar comigo a memória de minha amiga thais, em respeito a sua vida. e refletir com consciência sobre todos os efeitos que essa situação teve em minha vida.
o pavor em qualquer sinal de briga, os vômitos, o choro, o nervosismo. acho que passei anos tendo um tipo de estresse pós traumático e só hoje percebo com nitidez. mas em outro momento, talvez, eu falei mais sobre..

o que achei no mínimo curioso foi que hoje às 00h09, acordei assustada de um sonho e aproveitei para mijar. depois do mijo não consegui mais dormir. lembrei assim, do nada, de thais, de sua breve vida, e me deu vontade de pegar o celular pra escrever esta história. eu nunca pego o celular de madrugada, mas conversei comigo e me convenci, era um motivo muito merecedor. escrevi. depois tornei a dormir. aí que acordei ainda com a história na cabeça, liguei pra minha mãe pra ouvir suas memórias sobre o ocorrido. nisso ela lembra, hoje, dia 6 de junho, faz 20/21 anos desde de aquele dia.

doideira.

  eu e meu amigo vizinho joão vicente brincando na motoca que ganhei de thais

segunda-feira, 31 de maio de 2021

a gente planta o que colhe ou colhe o que planta?

 poderia te dizer que se não fosse como foi, não seria, mas não digo. tem dia que é maior, tem dia que é menor. tem dia que chove e tem dia que à noite mesmo fazendo 19 graus sinto calor, durmo sem roupa, acordo com a garganta coçando por não ter me protegido do frio que fazia fora, por dentro tudo quente, não precisei. 

amanhã já é outro mês, ouço milton nascimento e lembro relembro todo meu crescimento nestes últimos anos. meu paladar já não é mais o mesmo, tampouco meu olfato, me falta certa sensibilidade que antes tinha de muito nesses dois sentidos. acredito que por isso minha audição se mostra mais aguçada, tento cheirar e sentir gosto com os ouvidos agora. 

meu amigo me liga, planejo com ele um carnaval em olinda no ano de 2023. uma pausa na pausa.

volto sem saber o que queria aqui dizer. acho que, em verdade, não queria nada. tenho exercitado aparar no tempo o hábito de escrever. hábito que com o passar dos anos fui aos poucos perdendo, tantos foram os motivos. agora faço o esforço de recuperar, não só porque colho hoje os frutos das árvores semeadas muitos ontens atrás. mas sobretudo porque quero dar continuidade a essa comunicação que estabeleço comigo.

com os olhos nos riscos-feitiços de pemba que fiz na parede, aceito, tem dia que não tenho nada pra dizer. e acolho as palavras que saem, ainda assim.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

 já morei em muitas casas, mais de 15 ao longo dos meus 23 anos
em 5 diferentes cidades
depois que nasci nunca mais passei fome
o meu primeiro trabalho remunerado foi aos 16 anos 
tenho mãe e tenho pai
no meio da estrada eu sempre reparo que é bom sentir saudade
tenho facilidade de me sentir em casa nos mais diversos lugares
uma viagem
as vezes lembro o dia de minha morte
e as vezes sinto vontade de adivinhar o dia de meu nascimento
ata é minha fruta preferida, mas na paraíba se chama pinha 
escrevo poesia pra inventar quem sou
e achar em mim aquilo que algum dia ainda almejo ser
anos atrás eu fazia uma trança mais bonita com as palavras
não ligo
daqui a três anos eu vou dizer que sobrevivi a uma pandemia
e mesmo assim 
sem sorriso no rosto
vou me lembrar desse dia


sábado, 22 de maio de 2021

reler meus antigos escritos é sempre uma surpresa

era bonito o jeito o encaixe das palavras às vezes rio às vezes choro

reencontrar aquilo que fui e que nalgum lugar ainda sou

aprendo tanto como se não soubesse o que a anos atrás eu sabia

eu saberia

tenho um irmão de 29 anos, seu nome é italo e não nos falamos

não tenho seu número do zap, nem o sigo nas redes sociais

o conheço apenas por suposições e pelo o que dele ouço falar

também pelas lembranças da infância, pois

acho que subestimei sua presença em minha vida

hoje no meio de uma pandemia 

temo sua morte e ao ir dormir lhe desejo sorte

quero ainda ter a oportunidade de lhe reconhecer

olhar nos seus olhos tão parecidos com os meus

hoje ao bater uma selfie lembrei de você

te carrego em meu rosto

e nem é pela cicatriz do murro que tu me deu nos seus 19 anos

veja só, 10 anos se passaram

e ainda estamos .aqui. nesse impasse

 escrevo hoje por ontem e por amanhã

tem coisa que não se separa

o tempo............................

....................................

........................................

sigo catando feijões.

sábado, 8 de maio de 2021

 escrever com o teclado é doideira isso tô no inicio parece que as palavras não vão sair tenho um de javu pra frente a sensação de que vai acontecer aquilo lá na frente aquilo que já conheço bem a sensação e me doeu então mas penso mais uma vez posso driblar o destino fazer diferente, sim? ilusão ou verdade não sei nessa altura do campeonato os dias são quase todos iguais se diferenciam em intensidade e crueldade e inércia e vontade de sair de casa e não saber não ter certeza se amanhã quando eu acordar vou receber alguma notícia muito triste desesperadora agora é noite me preparo pra dormir escrevo só pra quebrar a rotina e canalizar essa energia minha gata matou um vagalume que entrou no meu quarto poderia fazer uma metáfora mas não quero não consigo respondo uma mensagem antiga juro pra mim verdade não lembro meus sonhos dormidos os acordados eu lembro de alguns da vontade de estar viva daqui um ano daqui oitenta anos minha vó me deu a herança da boa memória tecnologia de sobrevivência engraçado que quando escrevi sobre ela foi falando de quando ela esqueceu meu nome contradição ou talvez eu tenha ficado um pouco chateada com isso olhar de frente pra minha pequenez geralmente não me causa a sensação de que tem um cabelo na minha língua bem lidar secularmente com todas essas mortes matadas gera um buraco tão grande dentro da gente e aí usar esse espaço pra cuidar da terra cultivar outras coisas gerar fruto gerar semente que é injusto é mas poucas são as alternativas seguir acreditando ou não risco a parede fazendo um feitiço é segredo ainda mais tarde te conto um cheiro

terça-feira, 4 de maio de 2021

candeeiro

 as luzes dos teus cabelos a alumiar meus caminhos

só tenho medo de, sem querer, acabar por...

me incandear a vista.


domingo, 11 de abril de 2021

em casa

 estou lendo um livro que se chama

como desenhar pássaros

eu não sei voar

mas estou aprendendo  a fazer

minhas próprias asas


 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

quero gosto de fruta tirada do pé

num quero suco de pozinho não

quero chupar até o caroço

depois rebolar no mato

lambuzada molhada

lamber os dedo

dividir contigo esse doce azedo

é assim que quero

com sinceridade de fruto

que intenciona a semente

[construiremos um novo mundo]



dentro de mim corre um riacho

quando é tempo de estiage

ele seca de num ficar uma lágrima sequer

agora se o inverno é bom

em janeiro já tem água

nessa época

quando é de madrugada eu acordo pra sonhar

molho antes de tudo os dois pés

um pé pede licença e o outro pede a bença

na correnteza

passa peixe, desejo, passa seixo, passa vontade

e passa até segredo

tem o que fica pra trás 

e o que vai ficando pra frente

sim, eu sei

há algo naquele segredo

que ainda não ouso tocar

reconheço com respeito

pedra pequena que sou 

frente esse imenso lajedo

e não apresso, nem adivinho

calma, observo a água passar

quero sem despertador

ouvir o galo cantar

e quando é de manhã cedinho

ainda molhada 

o primeiro mijo do dia

vai descendo quente de dentro de mim

vou lembrando a afluente sou

e então 

e então 

eu deixo ir

embalagem



fruta a gente chupa até o caroço

e quando acaba rebola no mato

com a simplicidade de quem faz parte

caroço é semente de futuro

quanta ancestralidade

há num caroço coberto pelo fruto?


comida enlatada não tem caroço


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

não dou conta de tudo que a cabeça pensa
raspo o cabelo e faço dele uma oferenda
recebo em troca o vento lambendo minha mulera
como um portal que me abre
sinto
não mais a vontade de tirar leite de pedra
raiva sim da vida ódio fúria um fogo que sobe dos peito até a garganta
e ainda assim querer esse negócio
desejar
por a boca comer
dar continuidade
isso que chamam de viver
piscar lentamente como quem
mesmo atrasada
não vai perder o ônibus da viagem
troco de pele só porque sinto saudade
não quero mais comigo esse medo da morte esse medo da vida
cobra de duas cabeças que sou
são muitas as possibilidades
dobrados os caminhos
também as armadilhas
respiro
acendo uma vela
buscando iluminar as estradas que carrego por dentro
de olho fechado
ewa me diz onde pisar
e quando piso é firme
mas com imensa delicadeza

perdão todo esse palaviado
é só uma oração
mais uma vez tentando fazer as pazes com as palavras

que exu me deixe dizer
e sair
quando eu bem entender

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

feixe

 ainda não sei o que quero dizer

tenho medo de como minhas palavras podem ser recebidas

percebo isso com muito esforço

o que me parece sempre é que

é besteira o que tenho esperado tanto tempo pra falar

medo de não me sentir querida

medo de não me sentir bem-vinda

assim como fora tantas vezes

medo de sentirem pena de mim

de acharem que sou fraca e a qualquer momento

posso quebrar 

como copo de vidro que cai no chão 

esses medos vem de mão dadas com tantos outros

como uma constelação 

formam uma rede de pesca

e pescam tudo que tenho pra dizer

..,

mas por sorte

vez ou outra escapa 

um peixe