sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

naquela época tudo era mais fácil
tinha de jambo no pé
à canário no céu
houve um tempo que só o tempo bastava
nesses dias em janeiro já chovia
a sabiá alçava canto de adivinhação
habilidade de quem ouve o tempo
eu quando nasci já existia email
nessa ocasião, a comunicação já estava comprometida
digo isto porque palavra é tecnologia burocrata
quando não existia zap, reza a lenda
as pessoas se comunicavam por sonho
tecnologia de precisão e prestígio
por isso tenho alguma dificuldade ainda que com muita vontade
de entender certas coisas
aos vinte um anos que tenho
preciso me encher de esforço de sonhar e de comunicar
é que tem inteligência que vai ficando escondida dentro da genética da gente
atrás das lembrança da sombra daquele cajueiro
naquela época tudo era mais fácil
alguém me disse e eu fiquei repetindo a frase
em dois mil e dezenove procuro sinônimos de palavras no google
pra escrever poesia pra escrever relatório
o google me adivinhando palavras
vou me acostumando dessa técnica de presságio
ao passo que quando sonho
busco no google significado

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

todo dia de manhã vou chupar um limão
depois ácida demais, posso jogar um pouco de cal nos pés
em meus futuros caminhos regularei o pH
sendo salina,  suor pra desalinizar
se básica, vinagre e talvez um brinco de argola
preciso urgentemente aumentar minha humanidade

sábado, 23 de novembro de 2019

desejar como faz a terra
vontade de por a boca comer
escrever o nome de trás pra frente
como quem dá uma lambida no ventre no tempo
e só então fazer o convite
hora de relógio dia de calendário
é isso aí
quer ir?

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

sou uma pessoa
sendo uma pessoa adoeço
entristeço
e ta tudo bem
se no dia de hoje
não me esqueço
sou uma pessoa

sábado, 9 de novembro de 2019

sentir com a cabeça

olho meu email
olho meu zap
olho meu insta
olho meu feice
nenhuma mensagem
nenhuma novidade
oh coisa boa
olho meu blog
lembro que num sei mais escrever nem entender poesia
mas anos atrás eu sabia



domingo, 20 de outubro de 2019

sento pra pensar ao meio dia
na sombra do juazeiro que há em minha memória
não que me tenha faltado chuva,
mas talvez estratégias de armazenamento d'água
os açudes de dentro de mim
são ultrapassadas artimanhas de dominação,
num quero mais isso não.

quero ter estoque de chorar
de água limpa boa,
assim pra cada lote da memória
construirei uma cisterna bonita
de placa
autonomia pras minhas lembranças
beber, chorar, tomar banho.

tem lembrança que gosta de escovar os dentes
ainda que eu num goste
tenho de respeitar, num é? deixar livre
quer escovar, escova

digo aos esquecimentos, tudo vai melhorar
nada de açude pra evaporar disputar com bicho cabrito bicho vaca cagar memória que mora perto se beneficiar

esqueço e lembro
lembro e esqueço
sonho e lembro
esqueço e sonho
mastigo uma folha de juá
e já num adoeço mais

sábado, 5 de outubro de 2019

nim

o amor é um berço de ouro
e por ter nascido num
me sinto forte
cheia de
mim
não tenho medo da morte,
na rua ando tranquila
tomando banho de chuva
ou tomando banho de sol
não vou conjurando doença
ou qualquer outra sentença
e aí que se me lembro
separo minutos do dia
só pra pensar na morte
assim posso ir me acostumando
com os inícios
com as partidas as entradas e as saídas
não tenho medo da morte,
porque também sou bicho nato
mas só num me acostumo
com porcaria de assassinato
aí tenho medo e tem dia que a noite até rezo choro sei lá o que
de morte matada tenho medo
de arma tenho medo
de privação de liberdade tenho medo
hoje eu vou dormir tranquila
sem ter pesadelo com polícia
e amanhã vou acordar calma
sem ter medo da vida


sábado, 28 de setembro de 2019

escrever sem sentir medo do que sou, do que vivi, do que por ora posso dizer. deixar que as palavras saiam soltas peladas fantasiadas choradas gritadas bonitas exageradas. que quando me coloco assumo a responsabilidade e isso não deve doer. há de se ter compromisso com aquilo que se acredita. no mais, é tempo de enquanto caminha enxergar possibilidades e ir, se abrindo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

sento pra digitar
quero, no entanto, não só me salvar
mas, sobretudo, aprender a entrar sair estar
aos nove anos de idade, eu possuía certa sagacidade que hoje se muito me esforçar até consigo acessar. me esforço, então.
digo agora, que se for pra ser assim, não vai rolar oh. digo firme, aos vinte um anos que tenho. não quero, não preciso, não mereço. mereço sim o sol quente na pele, as mãos abundantes de trabalho, a mesa cheia de comida, os olhos marejados de seja qual for o que na hora sinto, a boca aberta pra falar pra sorrir gargalhar. é isso que mereço, molhar café no pão, cama quentinha no frio, quarto com mesa pra estudar, ouvidos atentos, olhos, mãos. é isso.
e se nesse momento preciso ter paciência, que eu tenha sabedoria de tê-la ao meu lado, sem grandes sofrimentos.
o futuro não sendo agora, posso pois com ele me comunicar.
sento pra digitar.
não me sinto só. de modo que não sinto vontade nem saudade de estar onde não quero.
moro em bananeiras, tenho uma gata chamada maya. maya gosta de ser bem cuidada. às cinco e meia da manhã maya me acorda pra que eu me arrume pro colégio e bote sua comida.
aos pouquinhos vou compreendendo os passos que dei aquele dia lá, o desvio, o desespero seguido de tranquilidade. daí que me inspira a ler o que não entendo, vai que é igual aqueles passo lá... aos poucos vai chegando o entendimento. anota isso aí...

domingo, 18 de agosto de 2019

paro e penso
por que todo esse alvoroço
essa agonia essa vontade de parar
de escrever em primeira pessoa
não faz sentido isso
quero dizer
eu sendo eu
não posso dizer?
apois
vou continuar fazendo
agora que sei que posso
que sou uma jovem de 21 anos
negra bissexual
e tenho sim esse poder
de dizer
o que sinto o que sou o que penso
de fato estou aprendendo ainda
a escrever a falar a pensar
e estar aqui
me faz acreditar
sendo assim me dito

terça-feira, 23 de julho de 2019

que quando abraço escuto
e quando escuto
recuso a habilidade da telepatia
quero escutar você terminar sua frase
sem tentar adivinhar
quão difícil é estar
aqui?
não quero sofrer
quando a chuva cai
quero sentir
sem conjurar doença
ou qualquer outra sentença
sento pra te ouvir
de olhos abertos
e mãos que querem compreender
sem fazer juízo
daquilo que não me cabe
daquilo não me pertence
posso apenas acolher
e me desculpe se naquele dia
fui dura ignorante
quero e tenho tentado
todo dia
amolecer

segunda-feira, 27 de maio de 2019

diabo



acordar cedo olhar pro lado não reconhecer a casa
vou puxar só uma carta
ao meio dia perceber
estou molhada
caminhar mais rápido
cheia de dedos
nas mãos e nos pés
embaraça o andar e o tocar
e no entanto não sei onde por as mãos
umedecidas eu
tento me adequar ao fuso horário
de meu corpo
demora um pouco pra mastigar
o oito e o setenta
no meio da rua fico assim
tentando decifrar disfarçar
fingindo que pra mim
tanto faz o frio tanto faz o quente

segunda-feira, 20 de maio de 2019

loucura

tiro um tarô
diz que não devo gastar meu tempo sonhando no que me foge o alcance das mãos
saio na rua
observo o olhar de 2 homens sobre mim
me apaixono por alguém
rápido assim
mas longe não paro tempo de pensá-la
volto pra casa matutando
o óbvio
começo então a enxergar possibilidades
se avanço
descongestiona também aí
um passo pra trás um passo pra frente
coragem é também admitir olhar no olho chorar desistir lamber piscar olhar pro lado
não há sinal de trânsito na cidade em que moro
mas tenho no quintal um pé de laranja
que é mesmo que ser um sinal
estamos criando formas de comunicação
me aperfeiçoo na habilidade de
ir
ou de
parar

segunda-feira, 6 de maio de 2019

mais do que lhe abençoo

quando a imagino do meu lado esquerdo
do peito
e da cabeça
reverencio à minha mãe
no iogurte caseiro que faço na hora que me dou fala no momento em que me deixo ser corpo
quando enfrento algo quando intuo quando choro quando brigo quando acalmo
nas vezes que me apaixono ou digo que amo ou nas vezes que digo o que sinto nos dias que olho pra trás na minha casa nas minhas asas nas lembranças de minha vó
reverencio à minha mãe
e me curvo
quando medito quando penso em África quando acordo às 4 da manhã quando viajo
quando tenho coragem
nas sementes que planto nas malas que faço na razão que uso no dinheiro que gasto na comida que como
reverencio à minha mãe
e me curvo
pela vida pelos pés no chão pela força pela serenidade pelo amor pela distância pela generosidade

quinta-feira, 25 de abril de 2019

inverno astral aqui dentro e aqui fora
faz 19 graus em solânea
amanhã vai acordar chovendo
há poucas coisas que senti de ontem pra cá
num espaço de 24h num tenho tempo de sentir muita coisa
o menino que mora comigo disse que ontem eu falei enquanto dormia
não tive coragem de perguntar a ele o que foi que eu falei
hoje ao ir dormir vou acender uma vela
daqui a menos de um mês eu completo um ano de vida a mais no mundo
ainda não aprendi a escrever em terceira pessoa nem a falar em público nem a falar de mim nem a ficar nem a fechar portas
talvez eu seja exigente demais dura demais cruel demais imatura despreparada inconsequente invasiva constrangedora incoerente intransigente acomodada preguiçosa óbvia chata egoísta egocêntrica inexperiente insensível desimportante boba esquecida rancorosa apaixonada iludida gasguita irresponsável medrosa chorona fraca prolixa estranha superficial mentirosa burra alienada incompreensiva torta desajeitada descomprometida.......
hoje ao ir dormir vou acender uma vela
e antes disso vou comer um dente de alho
e assoar o nariz
e me olhar no espelho


terça-feira, 23 de abril de 2019

por medo do que as palavras têm a me dizer, num escrevo
por medo do que as imagens tem a me ilustrar, num sonho, num desenho
nesses dias, vivo de maneira quase que dormente
quase, porque quando não me lembro de esquecer, vem uma coceira debaixo do meus peito
que lembra que naquele dia eu cavei um buraco na terra
e enterrei o que não podia carregar comigo
mas por desacaso do destino estamos no inverno
e tem chovido quase todo dia
nasce milho feijão fava beringela melancia
e que pode ta nascendo também aquiloquenaquelediaeuenterrei
pode ser que
num sei se é
porque num tenho coragem de ir lá olhar
fico pensando de longe às vezes quando bate a coceira debaixo dos peito
tenho medo, sim, porque sei que num posso com isso
num devo
num alcanço
num mereço
e quando bate o desejo é por inconsequência minha, falta de vergonha na cara
daí que quando atravesso a rua às 6h da manhã pra ir comprar pão, num penso em nada, mas quando penso
é que vai ser gostoso comer um pão quentinho com café e às vezes depois de pensar isso
eu penso em ti
não porque tenho vontade de merendar contigo ou porque quero saber se tu gosta de mergulhar o pão no café, num é por isso não.
se nessa hora penso em ti, é porque me bate a curiosidade de saber
se debaixo dos teus peito, às 6h da manhã quando tu atravessa a rua pra comprar pão, se coça também, debaixo dos teus peito.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

quando tu abre minhas feridas
eu faço enxertias
depois de um mês
elas já cicatrizadas
eu saio de casa maior
como se meu corpo
nunca tivesse sido
v
i
o
l
a
d
o

sábado, 23 de fevereiro de 2019

o cheiro forte da flor de laranjeira a se confundir com as memórias daquilo que nunca vivi
minha boca saliva


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

tchau

bananeira é uma planta matriarcal
na minha próxima casa quero ter um pé de alecrim no quintal
reforma agrária é justiça social
não faz sentido o que é normal
mais saúde tem a comida sem sal
dói a lógica colonial
diz-se que a primeira flor do mundo era bissexual
beijo só é bom se consensual
vinte e oito dias tem um ciclo menstrual
não existe distância num mapa astral
tem pessoa que é impessoal
me diz se tu prefere consoante ou vogal
ta na hora de dormir, afinal




há uma névoa netuniana que me embaça
netuno sendo o planeta da ilusão
ao meio dia se me olham
ha ilusões saindo do meio de minhas pernas
de dentro do meu suvaco
e se eu tivesse cabelo
sairia também dele
as pessoas que por ventura
me olham
ao meio dia
nao vêem a mim
mas as ilusões 
que elas acabam por ter como verdade
e eu ao meio dia
no sol morno de Bananeiras
as vezes acabo por acreditar também
naquilo que não sou

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

nem tudo que escrevo é verdade
mas tudo que escrevo é em primeira pessoa
acredito que por imaturidade
quando eu crescer vou escrever em terceira pessoa saber usar vírgula e ponto e crase e começarei as frases com letra maiúscula e tudo
derrubaria as cercas
deixaria que passasse o gado
as cabras
as mãos perderiam o caminho
acabariam por talvez
irem a lugares inadequados
impossíveis
imaginários
então
rezaria pra chuva vir
muitas ave marias voando por aí

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

domingo, 20 de janeiro de 2019

me vi

a mim, antecipo as poesias
que por algum acaso poderiam me escrever
escrevo-as
e dedico-me
permito o sonhar
alçar vôo e fazer pouso inédito
inspirada
descubro
e suspiro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

só um palpite

por dentro é como se estivéssemos no começo do caminho
tento não me iludir e converso comigo com honestidade
relembro das vezes em que estive errada a cerca do que me cerca e que nasce sob ou sobre meus pés
medito todos os dias desde então
quero achar o ponto a transa  a dança em que consigo me comunicar
com o mundo e comigo
experimento posicionar as mãos de formas diferentes, encarar os dias com mais leveza, confiar no futuro, respeitar os processos
preciso desapegar da ideia de que porque nasci no tempo errado vivo sob a sina de estar errada no tempo
quero ouvir, ainda... me fala!....
por fora os desmontes do governo fascista, os ônibus pegando fogo, as pontes sendo destruídas, tem a crise no sistema penitenciário, as facções em guerra com o estado. tenho tentado entender tudo isso. 
não é fácil estar atenta aos sinais, requer coragem e olhos que enxergam além do que se alcança.
e muito embora o óbvio me faça acreditar que não, eu boto fé que conseguiremos percorrer os caminhos de que precisamos para... sei lá, transver.
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será?
vamos ver..