quarta-feira, 31 de outubro de 2018

uma dor no meu dedo anelar esquerdo

diz-se que por este dedo
se passa uma veia que sai dali
e vai direto ao coração
é nele onde são colocadas as alianças
e outros adereços bregas

há uma dor no meu dedo anelar esquerdo
fora isso há fora de mim
tanta coisa acontecendo, notícia, geografia física, casa, amiga, tiro, pedra, fascismo
que não consigo processar
mas meu corpo tem tentado me falar
há uma dor no meu dedo anelar esquerdo

sábado, 20 de outubro de 2018

andar amada

o país pegando fogo
e sei lá como
ainda tenho cabeça
de pensar em poesia
há uma rua no meu imaginário, dobro sempre que ela me chama. as portas pressa rua me parecem sempre abertas. e aí que andando sozinha à noite numa cidade que pouco conheço, perigos à esquina,
me deixo ser levada por essa vielinha
que me chama lá dentro. dobro nela antes de dobrar na rua do medo. ela me puxa conversa sobre amor, eu que me faço toda ouvidos quando alguém me começa a contar de seus amores
vivos ou já vividos.

gosto de acreditar
que a melhor forma de conhecer alguém é observar a forma como ela fala de seus amores. quando começo a amar alguém reverencio antes todas as pessoas que ali naquele corpo amaram ou amam, como um gesto de respeito e licença. nisso não me atenho só aos amoresromânticossexuaisseiláoque, gosto de me atentar a todas as variações em que ele pode se mostrar. lembro de meus amores e converso com eles à distância.
o amor sendo meu maior escudo, acabo por me sentir protegida
aos que já foram aos que estão e aos que virão
agradeço e os saúdo.
saio pela rua trilhando mapas que a geografia não alcança, de peito aberto
avanço
.

campina grande, 19.10.18}

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

afio . confio

estupidez minha
talvez
há o que minha imaturidade não alcança
ainda
preciso crescer
e crescendo olho a lua
aumenta a proximidade
entre eu e ela
martela em mim
o desejo do que é mistério
entre as facas y canivetes
que caem do céu
há vagalumes y estrelas
que me guiam ao
inefável

.chegarei
meus pés
número 34
estão tranquilos
quebraram na última semana
duas chinelas
caminharam muitos quilômetros
estão vivendo bem suas vidas
não estão tristes
eles me ensinam a sorrir enquanto caminham
ir é o caminho
e nós estamos indo

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

jô tem olho de estrela e coração de tambor
se eu penso nela mais tarde a encontro
parece um tipo de encanto
gosto dos seus ouvidos e do jeito que suas mãos tocam o mundo
junta a gente pensa em passarinho, ovo, caixa d'agua, mãe, bicho, batuque, erva doce, cartas, devagarinho
vamos rindo a vida, acreditando que nossos pés são
uma ponte pro que se recita
as vezes penso que a gente é irmã
mas nunca disse isso a ela
um dia eu digo
jô, sua vida me fortalece por dentro
e me faz crescer por fora

terça-feira, 9 de outubro de 2018

como reagir?

não estou feliz
e quero poder dizer isso
sem culpa
sem precisar pedir desculpa
quando eu nasci
não sabia pensar
minha mãe sim
talvez ela tivesse triste
um tempo antes deu nascer
isso pode ter me ensinado
a rir muito para alegrá-la
hoje eu não tô feliz
sinto medo saudade
vulnerabilidade
mas não quero a proteção de ninguém
quero me sentir segura por ser eu
pela cor da minha pele
pelo que tenho entre as pernas
por quem escolho amar*
pelo lugar de onde vim
não quero que um Senhor
venha me ditar
o que devo fazer
pra onde devo ir
que se eu não obedecer
ele manda me bater ele manda me matar
ele me tira os direitos de ser
mas se de duas pessoas
uma me odeia
isso quer dizer
o que?
não sei o que pensar
mas eu já sei pensar
me lembro de pensar a primeira vez aos 3 anos
hoje eu penso de uma maneira mais elaborada
talvez menos objetiva
acontece que penso
mas não sei o que fazer
sinto, então
medo dor saudade vulnerabilidade
vontade de ir de gritar resistir
ligo pra minha mãe ela ri
diz que ta animada
não vai desistir
.....
acho que ela quer me alegrar
digo que tô triste
e ela diz
não fique assim.