quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

pra enterrar nosso amor 

não preciso construir uma piramide

nem um mausoléu estilo taj mahal

coisa pouca e breve que ele foi

coisa pouca e leve que ele é

ainda bem eu festejo

pra enterrar nosso amor

nele enxergo uma semente

e faço plantio direto no berço

domingo, 27 de março de 2022


no pulo dos pardais
nas flores do jerimum
no canto noturno das rãs
os dias passam 
as folhas caem
outras nascem
as mãos que por ora engrossam 
conquistam maior afinidade com os espinhos
isso tudo é tão comum
água aparada na bacia
casa de abelha 
os pés crescendo ali
uma chibanca que descansa na sombra 
depois do almoço
querendo digerir essa vontade danada
de chamar um cupim
pra roer a porta do tempo
eu não me importaria
aliás eu gostaria
de numa enxertia
ser o seu cavalo
tudo aquilo que vai ficando 
nem no começo nem no fim
mas no meio do poema 
bendizer o vaso de um floema
enquanto isso os galos
botam o sol pra dormir 
e as estrelas vão germinando
lá longe
lá longe

segunda-feira, 7 de março de 2022

deixo guardado um mistério
no fundo de tua axila
 
peito e umbigo já são muito requisitado
pra esses assunto de abrigo
 
o mundo é um cacho de banana com carbureto
pra amadurecer mais cedo
 
há muitas formas de abreviar a vida
ou esconder um segredo
 
todavia meus olhos continuam a salivar
com a gostosa castanha que envolve tua pupila 

ladainha


 
cavar um poço na tua memória
chafariz de ladainha 
aparar o vento numa bacia 
mais tarde arear as ideias
refletem as panelas ariadas
a dor oca da caristia
governo de si e a liberdade de escolha 
dos que sentem fome
como aquele dia
como ter uma arma apontada na cabeça 
o mundo segue tudo segue
estender os lençóis freáticos
e deixar secar num varal
vender
vender tudo
chove tanajura nessa tarde
e corre um cavalo 
dentro de ti
e dói 
dói muito

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

como posso me aproximar do amor?

se o mais perto de terra que me chega aos pés é esse solo compactado?
cavo
a sucessão do capital quer transformar tudo em chão cimentado
temo

olho para o lado as pessoas estão com fome
e a terra está cercada
com muito gado muito gado
tem segredos que não podemos esquecer,
mas sinto que aos poucos estou me esquecendo
meu bem
tento com muita força guardar comigo
o movimento das mãos
os caminhos que me levam a estabelecer comunicação
com ela
como posso fazer comida
como posso fazer um rito
como posso fazer amor
como posso ser coletivo
como posso matar,  como posso viver
tenho medo tenho medo de me esquecer
sementes geneticamente modificadas
são programadas pra não se reproduzirem mais
frutos inférteis a lambuzar nossa boca
o alimento envenenado está a nos contaminar a vida
confundindo os sentidos
erro a direção
não são de plástico minhas intenções
mas o delírio do consumo
pode acabar por me colorir o dia
preenche de lixo o vazio
me faz acreditar: banal é o que é real
os olhos as mãos os pés o indizível o intocável
 
como posso me aproximar do amor?
acho que estou me esquecendo
ontem morreu mais um rio
e não pude chorar nem uma lágrima
pra economizar nossa pouca água
de morte morrida eles também mata
eu não tenho medo da morte
porque também sou bicho nato
só que não me acostumo nunca
com porcaria de assassinato

quero cavar berço não quero cavar cova
quero cavar berço não quero cavar cova
quero cavar berço eu não quero cavar cova
me repito várias vezes ao dia
nele plantar feijão e ver crescer os caroço
colher cozinhar comer
isso é desejo primeiro
quando tudo ainda é abstrato
desejo fundador
por a boca sentir o gosto comer
mas como o fazer
nessa terra banhada a sangue
e glifosato?
monocultura e mata mato
quanta gente também num mata?

injusto é o velho e o novo normal
tipo fome oculta mascarada com açúcar
senhores de engenho modernos
continuam a defender seus canaviais
“desastres ambientais são castigo divino,
deus sempre sabe o que faz”
mas eu sei que no escuro da noite
eles sentem medo que essa gente também escura
decepe suas brancas cabeças
nada de divina, é justiça social
 
quando proibiram os tambores
esqueceram dos que trazíamos no peito
ainda que esqueçamos tudo
continuará o batuque aqui dentro
tem segredo que nunca poderemos tocar
como um amuleto, num tem jeito
é o que ainda me dá esperança de acreditar
e sim, eu sei que falo besteira
e misturo todos os assuntos
nasci com essa avaria de confundir os significantes 
e mesmo quando tu está dentro de mim
não deixo de pensar
em toda merda, em toda dor
me desculpe
acho que minha alma está ferida

ainda assim sinto
o peito querendo se  abrir
peixes de água doce e salgada aproveitam por mim
céu nuvem cor pétala pedra tronco areia gota
transmuto-me pra tocar aquilo que ainda não alcanço
corpo futuro
de mundo
de sonho de saliva e muita comida
buscar reflorestamento e reforma agrária
também no solo do pensamento
aos poucos, avanço
acreditar pra construir o caminho
sabendo que ele não se faz sozinho
guardar todas as sementes da paixão
ainda que em segredo

tem coisa que nunca sara
mas desejo também que a gente nunca pare
há de ser possível apesar de toda dor
como posso me aproximar do amor?
ainda não sei
então
por ora,
me aproximo
da palavra

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

e fala

cortar palavras
letras soltas
pontos vírgulas
cês cidilhas
palavras palavra
imaginárias palavras 
faladas palavras 
feridas palavras
escritas palavras 
erradas repetidas
larvas astrais
dizer cantado 
fazer uma colagem
e o que não 
cabe
eu enfio
tudo
no cu
das frase

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

quero olhar com verdade. tenho vontade muita de ver o corpo nu dos medos nossos, as inseguranças, aquilo tudo que não ousaríamos dizer com a boca. preciso ter cuidado com as ilusões que vez por outra podem me pousar a pele, por isso quero olhar com verdade. verdade de gente que é bicho, que come, que caga. quero querer não ser outra coisa, me transformar sempre dentro daquilo que sou, nem antes, nem depois. se deliro quero com isso fazer uma pintura, uma poesia, nada grande demais que possa nos confundir, nem pequeno demais que possa nos menosprezar. mas no cotidiano dos dias quero o pé pisando no chão, vento na cabeça, mão catando feijão, por do sol de tardezinha, desejar na lua nova, comer até encher o bucho, sonhar de madrugada, acordar inspirada, subir ladeira, quero olhar com verdade. pois, saber que é verdade também o que sinto por dentro, a coceira embaixo do peito, a vontade de piscar longa e pausadamente toda vez que o coração acerola.
te encontrar anos depois de em meus delírios inventar o sabor de teu corpo. com atenção conhecer tuas mãos, com cuidado conhecer o teu quarto, comer da tua comida, beber de tua água. chamar nossos monstros pra um encontro, olhar nos olhos, abraçá-los. encarar de frente os limites colocados, ter vontade de fugir, escolher ficar. deixar a lágrima cair enquanto te escuto dizer palavras fáceis de ouvir. engolir a lágrima enquanto te escuto dizer palavras duras de sair. quero olhar com verdade, a simplicidade de tu tirando um caju tão lindo no meio da rua, nós chupando junto.
não quero pedir desculpa pelos se, não pretendo me perder em caminhos não caminhados, nem imaginar ao ponto de inventar quem não existe pra gostar ou desgostar. quero olhar com verdade, e me esforço muito pra fazer esse movimento. agradecer pela disposição e coragem de olhar tão de perto, abrir as portas, e conhecer detalhes miúdos desse grande mistério que é viver. transver.

sábado, 15 de janeiro de 2022

 tem dia e tem noite
no meio as vezes tem um bocado de coisa
penso mais do que faço
o que falo tá no meio
terminar o ano dormindo
começar o outro ano sonhando
amanhã não me espera
embora eu espere por ela
sentir com a cabeça
rei de espada dentro dos peito
conhecer demora
todas aquelas cidades alagadas
teus olhos molhados
desse lado seca braba
de minha boca, nem saliva
mas não apresso
como se a partida num ficasse 
a cada dia mais perto 
quero ter a paciência de um tempo
que não se conta pelas horas de um relógio
e tudo muda 
de caju romã acerola 
crescer pra dentro demora
mais até que conhecer
não dá pra botar no umbigo o mundo
nem tentar qualquer outra coisa mais imunda
de qualquer forma
o caminho será injusto
por isso desejo tanto preparo 
e ainda assim
deixo aberto os poros de meu rosto
para que entre com calma
no caminho inverso ao das espinhas
olha pra mim não
olha pra fora 
conta estrela areia flor 
nenhuma novidade
quero o simples muito mais que o exagero
....vontade sincera

pois tá
até depois
depois
e depois 

com sentimento de muitos ontens antes de ontem,

(31.12.2021)