quero olhar com verdade. tenho vontade muita de ver o corpo nu dos medos nossos, as inseguranças, aquilo tudo que não ousaríamos dizer com a boca. preciso ter cuidado com as ilusões que vez por outra podem me pousar a pele, por isso quero olhar com verdade. verdade de gente que é bicho, que come, que caga. quero querer não ser outra coisa, me transformar sempre dentro daquilo que sou, nem antes, nem depois. se deliro quero com isso fazer uma pintura, uma poesia, nada grande demais que possa nos confundir, nem pequeno demais que possa nos menosprezar. mas no cotidiano dos dias quero o pé pisando no chão, vento na cabeça, mão catando feijão, por do sol de tardezinha, desejar na lua nova, comer até encher o bucho, sonhar de madrugada, acordar inspirada, subir ladeira, quero olhar com verdade. pois, saber que é verdade também o que sinto por dentro, a coceira embaixo do peito, a vontade de piscar longa e pausadamente toda vez que o coração acerola.
te encontrar anos depois de em meus delírios inventar o sabor de teu corpo. com atenção conhecer tuas mãos, com cuidado conhecer o teu quarto, comer da tua comida, beber de tua água. chamar nossos monstros pra um encontro, olhar nos olhos, abraçá-los. encarar de frente os limites colocados, ter vontade de fugir, escolher ficar. deixar a lágrima cair enquanto te escuto dizer palavras fáceis de ouvir. engolir a lágrima enquanto te escuto dizer palavras duras de sair. quero olhar com verdade, a simplicidade de tu tirando um caju tão lindo no meio da rua, nós chupando junto.
não quero pedir desculpa pelos se, não pretendo me perder em caminhos não caminhados, nem imaginar ao ponto de inventar quem não existe pra gostar ou desgostar. quero olhar com verdade, e me esforço muito pra fazer esse movimento. agradecer pela disposição e coragem de olhar tão de perto, abrir as portas, e conhecer detalhes miúdos desse grande mistério que é viver. transver.