como um desejo ao contrário
busco a palavra
cavo um buraco atrás das pistas
fósseis de delírios passados
minhas mãos aprendizes do tempo
fecho os olhos pra sentir o sol atravessando meu corpo
é desejo de vida o que os pés sentem ao tocar a terra
ao assentar na pedra dilapidada pelo vento
pelas fogueiras dos festejos
te escrevi naquele dia
te escrevo tantos são os dias
tu que sou eu
eu que as vezes não sou tu
engraçado ver o ritmo das plantas
dançando lentas agitadas paradas
crescendo ou deixando de crescer
tem uma hora que chega atingiu o ponto
que delícia é atingir o ponto
mas ser bicho gente é nunca chegar
sempre ir sempre ir
e tem hora de sentar e tem hora de deitar
sonhar todos os sonhos impossíveis
realizar possibilidades não sonhadas também tem o valor de fruta no pé madura
docinha gostosa
me lambuzo só de pensar
plantar feijão e ver crescer os caroço colher cozinhar e comer
isso é desejo primeiro
desejo fundador
por a boca sentir o gosto comer
encher o bucho
e aí então saber o que fazer com as mãos
os buracos que valem e os buracos que não valem
cavo pra achar a palavra
não acho
boto uma semente rasinha
5cm da superfície
o simples é tão grande me assusto
o extraordinário é qualquer coisa
não me espanto
o desejo ao contrário as vezes é só desejo
que tem medo de ser
acho graça
essa coisa que é gente
gente é assim dorme pra sonhar
e quando acorda não lembra
e se lembra depois esquece
e se não esquece não entende
e se entende
vira ao contrário
acho graça
semeio no raso a semente pra vingar
pensando e se
amanhã chover
pode ser que
o barulho dos pingos da chuva
caindo na bacia
me lembrem o que eu não deveria ter me esquecido
ter me escondido
tomara