sexta-feira, 2 de abril de 2021

dentro de mim corre um riacho

quando é tempo de estiage

ele seca de num ficar uma lágrima sequer

agora se o inverno é bom

em janeiro já tem água

nessa época

quando é de madrugada eu acordo pra sonhar

molho antes de tudo os dois pés

um pé pede licença e o outro pede a bença

na correnteza

passa peixe, desejo, passa seixo, passa vontade

e passa até segredo

tem o que fica pra trás 

e o que vai ficando pra frente

sim, eu sei

há algo naquele segredo

que ainda não ouso tocar

reconheço com respeito

pedra pequena que sou 

frente esse imenso lajedo

e não apresso, nem adivinho

calma, observo a água passar

quero sem despertador

ouvir o galo cantar

e quando é de manhã cedinho

ainda molhada 

o primeiro mijo do dia

vai descendo quente de dentro de mim

vou lembrando a afluente sou

e então 

e então 

eu deixo ir

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