domingo, 11 de julho de 2021

tenho medo de sem querer colocar minha mão dentro do liquidificador ligado
igual aquele dia que numa reunião de trabalho grampeei meus dedos
sonho querendo botar tela nas janelas de um alto apartamento 
tive medo de sem querer cair lá de cima enquanto eu assistia o nascer do sol deitada na janela
do sei lá, décimo andar
 vou me enganando até acreditar que sou outra coisa
te engano também
finjo esquecer 
finjo até me lembrar
tem pensamento que só aparece no meio de alguma estrada
acho que só sei viver assim
se for com saudade
coisa que minha criança me ensina 
aceitar a distância
como parte do caminho
 
o mundo é injusto
às vezes acho que não conseguiremos mais 
sementes geneticamente modificadas são programadas pra não se reproduzirem
frutos inférteis a lambuzar nossa boca
por sorte tem pé de milho que naturalmente dá dois sabugo
jadiel diria dois milho.amor.total de caroços-dimensão
e eu concordo
mesmo que em segredo devemos guardar nossas sementes sagradas
na paraíba se chama semente da paixão
essas coisas todas que não podemos deixar a monocultura de tudo levar

tento reflorestar meu pensamento
entende?
tarefa desafiante em meio a tanta terra que eles dessertificaram
nos meus delírios
um dia verei flores de xique xique a desabrochar
avisando da chuva
e não temerei 
espetar os dedos

segunda-feira, 5 de julho de 2021

me dito

do alto de uma enxaqueca 

cercada de não ditos

medito

tentando alcançar além das cercas

tudo isso é tão esquisito...






sábado, 19 de junho de 2021

como caça e caçador


 dentro de mim




 na mata ando descalça

só pra aumentar a proximidade

nossa comunicação

explico aos que tentam me proteger com xinelos

eu sei pisar

sem medo de espinho

porque esses fazem parte

e quando as urtigas me tocam 

não acho ruim 

se penso nelas nesse momento

é no gostoso caldo

que posso fazer

.urticante

me sinto quebrada
letras que não formam palavras
na ponta de minha língua


domingo, 6 de junho de 2021

registro triste

aos 2/3 anos eu morava na vila da bosta, com minha mãe e meu irmão. eu gostava de morar lá, também porque tinha uma amiga muito muito legal. ela era mais velha que eu, então lembro de a admirar muito, pensar quando crescer quero ser esperta assim. a gente brincava de colégio na sua cadeirinha verde. nessa época, eu ainda não estudava. ela morava na casa ao lado da minha e todo dia ela vinha pra minha casa ou eu ia pra sua.
acontece que chegou uma época que a mãe dessa minha amiga decidiu se separar e separou. mas o caba safado vivia de azucrinar a vida delas (mãe, filha e avó). num dia de sol sendo manhã ou tarde, ele foi lá na casa delas e chamou. ninguém foi atender porque já sabiam quem era. passado um tempo, ele aperreando muito, minha amiguinha foi até a área pra vê-lo através do portão e a avó foi atrás pra levá-la de volta pra dentro. aí que quando chegaram lá, ele tava armado, e matou vó e filha. assim, de tiro, na área onde a gente brincava. depois apontou pra própria cabeça e outro tiro.
depois daí há duas versões, a de que eu tava em casa com minha vó que me botou nos braços assustada e foi comigo até a rua, onde vimos toda a cena.
e na outra estava com minha mãe, que sozinha foi ver o que houve e horrorizada teve o maior cuidado pra que eu não visse nada.
bem, de fato, não tenho memórias imagéticas do ocorrido em minha lembrança. mas lembro muito do depois, em verdade às vezes acho que minha primeira amiga e seu assassinato são as primeiras memórias que tenho da vida. mas não sei, é difícil achar a ordem cronológica quando não são lineares os pensamentos e a elaboração de memórias. mas sem dúvidas foi meu primeiro contato com a morte, em que pensei, ao meu modo e idade, ativamente sobre a morte, descobrindo seu significado. lembro de sua mãe em nossa casa chorando muito nos dias que se seguiram. lembro que ganhei ruas roupas, brinquedos e a cadeirinha verde que eu tanto gostava, mas depois minha mãe devolveu a maior parte, pois não conseguia guardar o peso todo que carregavam aquelas coisas. pude ficar então só com a cadeirinha verde e sua motoca.
brinquei muito na cadeirinha verde sem minha amiga, mas era inevitável lembrar dela sempre que eu sentava naquela cadeira, lembro de às vezes pensar nunca mais vou vê-la e me perguntava por quê, era muito estranho aquilo.
depois de um tempo a mãe de minha amiga foi morar no interior pra reconstruir a vida. e nós, um ano depois, nos mudamos também, não sei se por isso ou se pela peregrinação da vida de aluguel. talvez ou dois motivos.
tenho tentado então fazer o exercício de elaborar sobre essa memória. quero guardar comigo a memória de minha amiga thais, em respeito a sua vida. e refletir com consciência sobre todos os efeitos que essa situação teve em minha vida.
o pavor em qualquer sinal de briga, os vômitos, o choro, o nervosismo. acho que passei anos tendo um tipo de estresse pós traumático e só hoje percebo com nitidez. mas em outro momento, talvez, eu falei mais sobre..

o que achei no mínimo curioso foi que hoje às 00h09, acordei assustada de um sonho e aproveitei para mijar. depois do mijo não consegui mais dormir. lembrei assim, do nada, de thais, de sua breve vida, e me deu vontade de pegar o celular pra escrever esta história. eu nunca pego o celular de madrugada, mas conversei comigo e me convenci, era um motivo muito merecedor. escrevi. depois tornei a dormir. aí que acordei ainda com a história na cabeça, liguei pra minha mãe pra ouvir suas memórias sobre o ocorrido. nisso ela lembra, hoje, dia 6 de junho, faz 20/21 anos desde de aquele dia.

doideira.

  eu e meu amigo vizinho joão vicente brincando na motoca que ganhei de thais