domingo, 16 de fevereiro de 2020

semana passada quando fui pegar água pra aguar meus quiabo
meus óculos caíram dentro da cisterna
agora com os olhos dentro dela
posso te olhar sem medo
o tempo necessário 
o tempo que dura tu
buscando água na cisterna

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

naquela época tudo era mais fácil
tinha de jambo no pé
à canário no céu
houve um tempo que só o tempo bastava
nesses dias em janeiro já chovia
a sabiá alçava canto de adivinhação
habilidade de quem ouve o tempo
eu quando nasci já existia email
nessa ocasião, a comunicação já estava comprometida
digo isto porque palavra é tecnologia burocrata
quando não existia zap, reza a lenda
as pessoas se comunicavam por sonho
tecnologia de precisão e prestígio
por isso tenho alguma dificuldade ainda que com muita vontade
de entender certas coisas
aos vinte um anos que tenho
preciso me encher de esforço de sonhar e de comunicar
é que tem inteligência que vai ficando escondida dentro da genética da gente
atrás das lembrança da sombra daquele cajueiro
naquela época tudo era mais fácil
alguém me disse e eu fiquei repetindo a frase
em dois mil e dezenove procuro sinônimos de palavras no google
pra escrever poesia pra escrever relatório
o google me adivinhando palavras
vou me acostumando dessa técnica de presságio
ao passo que quando sonho
busco no google significado

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

todo dia de manhã vou chupar um limão
depois ácida demais, posso jogar um pouco de cal nos pés
em meus futuros caminhos regularei o pH
sendo salina,  suor pra desalinizar
se básica, vinagre e talvez um brinco de argola
preciso urgentemente aumentar minha humanidade

sábado, 23 de novembro de 2019

desejar como faz a terra
vontade de por a boca comer
escrever o nome de trás pra frente
como quem dá uma lambida no ventre no tempo
e só então fazer o convite
hora de relógio dia de calendário
é isso aí
quer ir?

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

sou uma pessoa
sendo uma pessoa adoeço
entristeço
e ta tudo bem
se no dia de hoje
não me esqueço
sou uma pessoa

sábado, 9 de novembro de 2019

sentir com a cabeça

olho meu email
olho meu zap
olho meu insta
olho meu feice
nenhuma mensagem
nenhuma novidade
oh coisa boa
olho meu blog
lembro que num sei mais escrever nem entender poesia
mas anos atrás eu sabia



domingo, 20 de outubro de 2019

sento pra pensar ao meio dia
na sombra do juazeiro que há em minha memória
não que me tenha faltado chuva,
mas talvez estratégias de armazenamento d'água
os açudes de dentro de mim
são ultrapassadas artimanhas de dominação,
num quero mais isso não.

quero ter estoque de chorar
de água limpa boa,
assim pra cada lote da memória
construirei uma cisterna bonita
de placa
autonomia pras minhas lembranças
beber, chorar, tomar banho.

tem lembrança que gosta de escovar os dentes
ainda que eu num goste
tenho de respeitar, num é? deixar livre
quer escovar, escova

digo aos esquecimentos, tudo vai melhorar
nada de açude pra evaporar disputar com bicho cabrito bicho vaca cagar memória que mora perto se beneficiar

esqueço e lembro
lembro e esqueço
sonho e lembro
esqueço e sonho
mastigo uma folha de juá
e já num adoeço mais