quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

como posso me aproximar do amor?

se o mais perto de terra que me chega aos pés é esse solo compactado?
cavo
a sucessão do capital quer transformar tudo em chão cimentado
temo

olho para o lado as pessoas estão com fome
e a terra está cercada
com muito gado muito gado
tem segredos que não podemos esquecer,
mas sinto que aos poucos estou me esquecendo
meu bem
tento com muita força guardar comigo
o movimento das mãos
os caminhos que me levam a estabelecer comunicação
com ela
como posso fazer comida
como posso fazer um rito
como posso fazer amor
como posso ser coletivo
como posso matar,  como posso viver
tenho medo tenho medo de me esquecer
sementes geneticamente modificadas
são programadas pra não se reproduzirem mais
frutos inférteis a lambuzar nossa boca
o alimento envenenado está a nos contaminar a vida
confundindo os sentidos
erro a direção
não são de plástico minhas intenções
mas o delírio do consumo
pode acabar por me colorir o dia
preenche de lixo o vazio
me faz acreditar: banal é o que é real
os olhos as mãos os pés o indizível o intocável
 
como posso me aproximar do amor?
acho que estou me esquecendo
ontem morreu mais um rio
e não pude chorar nem uma lágrima
pra economizar nossa pouca água
de morte morrida eles também mata
eu não tenho medo da morte
porque também sou bicho nato
só que não me acostumo nunca
com porcaria de assassinato

quero cavar berço não quero cavar cova
quero cavar berço não quero cavar cova
quero cavar berço eu não quero cavar cova
me repito várias vezes ao dia
nele plantar feijão e ver crescer os caroço
colher cozinhar comer
isso é desejo primeiro
quando tudo ainda é abstrato
desejo fundador
por a boca sentir o gosto comer
mas como o fazer
nessa terra banhada a sangue
e glifosato?
monocultura e mata mato
quanta gente também num mata?

injusto é o velho e o novo normal
tipo fome oculta mascarada com açúcar
senhores de engenho modernos
continuam a defender seus canaviais
“desastres ambientais são castigo divino,
deus sempre sabe o que faz”
mas eu sei que no escuro da noite
eles sentem medo que essa gente também escura
decepe suas brancas cabeças
nada de divina, é justiça social
 
quando proibiram os tambores
esqueceram dos que trazíamos no peito
ainda que esqueçamos tudo
continuará o batuque aqui dentro
tem segredo que nunca poderemos tocar
como um amuleto, num tem jeito
é o que ainda me dá esperança de acreditar
e sim, eu sei que falo besteira
e misturo todos os assuntos
nasci com essa avaria de confundir os significantes 
e mesmo quando tu está dentro de mim
não deixo de pensar
em toda merda, em toda dor
me desculpe
acho que minha alma está ferida

ainda assim sinto
o peito querendo se  abrir
peixes de água doce e salgada aproveitam por mim
céu nuvem cor pétala pedra tronco areia gota
transmuto-me pra tocar aquilo que ainda não alcanço
corpo futuro
de mundo
de sonho de saliva e muita comida
buscar reflorestamento e reforma agrária
também no solo do pensamento
aos poucos, avanço
acreditar pra construir o caminho
sabendo que ele não se faz sozinho
guardar todas as sementes da paixão
ainda que em segredo

tem coisa que nunca sara
mas desejo também que a gente nunca pare
há de ser possível apesar de toda dor
como posso me aproximar do amor?
ainda não sei
então
por ora,
me aproximo
da palavra

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

e fala

cortar palavras
letras soltas
pontos vírgulas
cês cidilhas
palavras palavra
imaginárias palavras 
faladas palavras 
feridas palavras
escritas palavras 
erradas repetidas
larvas astrais
dizer cantado 
fazer uma colagem
e o que não 
cabe
eu enfio
tudo
no cu
das frase

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

quero olhar com verdade. tenho vontade muita de ver o corpo nu dos medos nossos, as inseguranças, aquilo tudo que não ousaríamos dizer com a boca. preciso ter cuidado com as ilusões que vez por outra podem me pousar a pele, por isso quero olhar com verdade. verdade de gente que é bicho, que come, que caga. quero querer não ser outra coisa, me transformar sempre dentro daquilo que sou, nem antes, nem depois. se deliro quero com isso fazer uma pintura, uma poesia, nada grande demais que possa nos confundir, nem pequeno demais que possa nos menosprezar. mas no cotidiano dos dias quero o pé pisando no chão, vento na cabeça, mão catando feijão, por do sol de tardezinha, desejar na lua nova, comer até encher o bucho, sonhar de madrugada, acordar inspirada, subir ladeira, quero olhar com verdade. pois, saber que é verdade também o que sinto por dentro, a coceira embaixo do peito, a vontade de piscar longa e pausadamente toda vez que o coração acerola.
te encontrar anos depois de em meus delírios inventar o sabor de teu corpo. com atenção conhecer tuas mãos, com cuidado conhecer o teu quarto, comer da tua comida, beber de tua água. chamar nossos monstros pra um encontro, olhar nos olhos, abraçá-los. encarar de frente os limites colocados, ter vontade de fugir, escolher ficar. deixar a lágrima cair enquanto te escuto dizer palavras fáceis de ouvir. engolir a lágrima enquanto te escuto dizer palavras duras de sair. quero olhar com verdade, a simplicidade de tu tirando um caju tão lindo no meio da rua, nós chupando junto.
não quero pedir desculpa pelos se, não pretendo me perder em caminhos não caminhados, nem imaginar ao ponto de inventar quem não existe pra gostar ou desgostar. quero olhar com verdade, e me esforço muito pra fazer esse movimento. agradecer pela disposição e coragem de olhar tão de perto, abrir as portas, e conhecer detalhes miúdos desse grande mistério que é viver. transver.

sábado, 15 de janeiro de 2022

 tem dia e tem noite
no meio as vezes tem um bocado de coisa
penso mais do que faço
o que falo tá no meio
terminar o ano dormindo
começar o outro ano sonhando
amanhã não me espera
embora eu espere por ela
sentir com a cabeça
rei de espada dentro dos peito
conhecer demora
todas aquelas cidades alagadas
teus olhos molhados
desse lado seca braba
de minha boca, nem saliva
mas não apresso
como se a partida num ficasse 
a cada dia mais perto 
quero ter a paciência de um tempo
que não se conta pelas horas de um relógio
e tudo muda 
de caju romã acerola 
crescer pra dentro demora
mais até que conhecer
não dá pra botar no umbigo o mundo
nem tentar qualquer outra coisa mais imunda
de qualquer forma
o caminho será injusto
por isso desejo tanto preparo 
e ainda assim
deixo aberto os poros de meu rosto
para que entre com calma
no caminho inverso ao das espinhas
olha pra mim não
olha pra fora 
conta estrela areia flor 
nenhuma novidade
quero o simples muito mais que o exagero
....vontade sincera

pois tá
até depois
depois
e depois 

com sentimento de muitos ontens antes de ontem,

(31.12.2021)

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

a noite veio uma mão arrancar uma vértebra de minha coluna
pedi alto que não tirasse 
ainda quero te ver muitas vezes
tantas miudezas 
no intervalo de algumas horas
quem diria que com tão pouca surpresa
vai acontecendo o inesperado
já adivinhado e profetizado por muitos ontens
lágrimas de beber a molhar os dias
encher os baldes e dar descargas

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

agradeço

p/ todes que amo

aí que me dá uma vontade de dizer que te amo
não que eu nunca tenha o feito
já fiz e muito o faço!
tu logo tu 
que nunca nunquinha
vai poder me dar aquilo que almejo 
fantasio desejo
não um eu te amo
num é isso não
amor é bicho fácil de se dar 
ouso dizer até de acontecer
mas aquilo outro lá
que ainda não tem nome pra mim
isso tu nunca vai dar 
e mesmo assim 
consciente enfim do que me permeia
me vem essa vontade
que felicidade curiosa 
ter coragem de atravessar as portas
é por isso que quando vem essa vontade danada
eu digo que te amo 
porque sei
que paralém da minha fantasia
há alguém
olho pra esse alguém e me reconheço:
eu não sou tu! pois bem

te amo porque me reconheço