não dou conta de tudo que a cabeça pensa
raspo o cabelo e faço dele uma oferenda
recebo em troca o vento lambendo minha mulera
como um portal que me abre
sinto
não mais a vontade de tirar leite de pedra
raiva sim da vida ódio fúria um fogo que sobe dos peito até a garganta
e ainda assim querer esse negócio
desejar
por a boca comer
dar continuidade
isso que chamam de viver
piscar lentamente como quem
mesmo atrasada
não vai perder o ônibus da viagem
troco de pele só porque sinto saudade
não quero mais comigo esse medo da morte esse medo da vida
cobra de duas cabeças que sou
são muitas as possibilidades
dobrados os caminhos
também as armadilhas
respiro
acendo uma vela
buscando iluminar as estradas que carrego por dentro
de olho fechado
ewa me diz onde pisar
e quando piso é firme
mas com imensa delicadeza
perdão todo esse palaviado
é só uma oração
mais uma vez tentando fazer as pazes com as palavras
que exu me deixe dizer
e sair
quando eu bem entender
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
feixe
ainda não sei o que quero dizer
tenho medo de como minhas palavras podem ser recebidas
percebo isso com muito esforço
o que me parece sempre é que
é besteira o que tenho esperado tanto tempo pra falar
medo de não me sentir querida
medo de não me sentir bem-vinda
assim como fora tantas vezes
medo de sentirem pena de mim
de acharem que sou fraca e a qualquer momento
posso quebrar
como copo de vidro que cai no chão
esses medos vem de mão dadas com tantos outros
como uma constelação
formam uma rede de pesca
e pescam tudo que tenho pra dizer
..,
mas por sorte
vez ou outra escapa
um peixe
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
segunda-feira, 27 de julho de 2020
não me conheço
se um dia o fiz
não lembro
tento recordar
olho foto desenho poema
em todo canto que busco
não tô
quando acho que tô perto do encontro
dobro a esquina
e na quina do pensamento
bato a cabeça
cria um galo
aumenta o caminho
percorro em sonho
as 4h35 da manhã ele canta
acordo sem saber quem sou
do xilema até o floema custa um pouco
um beijo com sabor azedo
um limão docinho
escrevo
pra me localizar no tempo
aquele dia eu disse tudo ao avesso
e tu que nem existe
adivinhou
ao passo que ando pra dentro
aumentam as estradas por fora
sábado, 18 de julho de 2020
ferida
um dia, ao passo dos meus 6 anos, no recreio da escola, uma menina, sara é seu nome, a qual eu considerava amiga, me olha e diz:
ei, não posso mais brincar contigo
minha mãe não deixa eu andar com gente
que é assim
escura.
como dói.
nao lembro o que fiz em seguida, mas lembro da sensação que vinha da barriga até a garganta. à noite, talvez, tenha chegado aos olhos, não sei.
acessei hoje essa memória, às seis horas da noite. assim, do nada. não lembrava, mas ao lembrar, lembrei.
como dói.
um dia sara, quem sabe?
ei, não posso mais brincar contigo
minha mãe não deixa eu andar com gente
que é assim
escura.
como dói.
nao lembro o que fiz em seguida, mas lembro da sensação que vinha da barriga até a garganta. à noite, talvez, tenha chegado aos olhos, não sei.
acessei hoje essa memória, às seis horas da noite. assim, do nada. não lembrava, mas ao lembrar, lembrei.
como dói.
um dia sara, quem sabe?
quinta-feira, 16 de julho de 2020
exercício de autorretrato
sou alguém,
gente gente de peito grande,
com dois peitos muito pequenos
sendo um maior que o outro.
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