as luzes dos teus cabelos a alumiar meus caminhos
só tenho medo de, sem querer, acabar por...
me incandear a vista.
as luzes dos teus cabelos a alumiar meus caminhos
só tenho medo de, sem querer, acabar por...
me incandear a vista.
estou lendo um livro que se chama
como desenhar pássaros
eu não sei voar
mas estou aprendendo a fazer
minhas próprias asas
dentro de mim corre um riacho
quando é tempo de estiage
ele seca de num ficar uma lágrima sequer
agora se o inverno é bom
em janeiro já tem água
nessa época
quando é de madrugada eu acordo pra sonhar
molho antes de tudo os dois pés
um pé pede licença e o outro pede a bença
na correnteza
passa peixe, desejo, passa seixo, passa vontade
e passa até segredo
tem o que fica pra trás
e o que vai ficando pra frente
sim, eu sei
há algo naquele segredo
que ainda não ouso tocar
reconheço com respeito
pedra pequena que sou
frente esse imenso lajedo
e não apresso, nem adivinho
calma, observo a água passar
quero sem despertador
ouvir o galo cantar
e quando é de manhã cedinho
ainda molhada
o primeiro mijo do dia
vai descendo quente de dentro de mim
vou lembrando a afluente sou
e então
e então
eu deixo ir
fruta a gente chupa até o caroço
e quando acaba rebola no mato
com a simplicidade de quem faz parte
caroço é semente de futuro
quanta ancestralidade
há num caroço coberto pelo fruto?
comida enlatada não tem caroço
não dou conta de tudo que a cabeça pensa
raspo o cabelo e faço dele uma oferenda
recebo em troca o vento lambendo minha mulera
como um portal que me abre
sinto
não mais a vontade de tirar leite de pedra
raiva sim da vida ódio fúria um fogo que sobe dos peito até a garganta
e ainda assim querer esse negócio
desejar
por a boca comer
dar continuidade
isso que chamam de viver
piscar lentamente como quem
mesmo atrasada
não vai perder o ônibus da viagem
troco de pele só porque sinto saudade
não quero mais comigo esse medo da morte esse medo da vida
cobra de duas cabeças que sou
são muitas as possibilidades
dobrados os caminhos
também as armadilhas
respiro
acendo uma vela
buscando iluminar as estradas que carrego por dentro
de olho fechado
ewa me diz onde pisar
e quando piso é firme
mas com imensa delicadeza
perdão todo esse palaviado
é só uma oração
mais uma vez tentando fazer as pazes com as palavras
que exu me deixe dizer
e sair
quando eu bem entender
ainda não sei o que quero dizer
tenho medo de como minhas palavras podem ser recebidas
percebo isso com muito esforço
o que me parece sempre é que
é besteira o que tenho esperado tanto tempo pra falar
medo de não me sentir querida
medo de não me sentir bem-vinda
assim como fora tantas vezes
medo de sentirem pena de mim
de acharem que sou fraca e a qualquer momento
posso quebrar
como copo de vidro que cai no chão
esses medos vem de mão dadas com tantos outros
como uma constelação
formam uma rede de pesca
e pescam tudo que tenho pra dizer
..,
mas por sorte
vez ou outra escapa
um peixe