sábado, 8 de maio de 2021

 escrever com o teclado é doideira isso tô no inicio parece que as palavras não vão sair tenho um de javu pra frente a sensação de que vai acontecer aquilo lá na frente aquilo que já conheço bem a sensação e me doeu então mas penso mais uma vez posso driblar o destino fazer diferente, sim? ilusão ou verdade não sei nessa altura do campeonato os dias são quase todos iguais se diferenciam em intensidade e crueldade e inércia e vontade de sair de casa e não saber não ter certeza se amanhã quando eu acordar vou receber alguma notícia muito triste desesperadora agora é noite me preparo pra dormir escrevo só pra quebrar a rotina e canalizar essa energia minha gata matou um vagalume que entrou no meu quarto poderia fazer uma metáfora mas não quero não consigo respondo uma mensagem antiga juro pra mim verdade não lembro meus sonhos dormidos os acordados eu lembro de alguns da vontade de estar viva daqui um ano daqui oitenta anos minha vó me deu a herança da boa memória tecnologia de sobrevivência engraçado que quando escrevi sobre ela foi falando de quando ela esqueceu meu nome contradição ou talvez eu tenha ficado um pouco chateada com isso olhar de frente pra minha pequenez geralmente não me causa a sensação de que tem um cabelo na minha língua bem lidar secularmente com todas essas mortes matadas gera um buraco tão grande dentro da gente e aí usar esse espaço pra cuidar da terra cultivar outras coisas gerar fruto gerar semente que é injusto é mas poucas são as alternativas seguir acreditando ou não risco a parede fazendo um feitiço é segredo ainda mais tarde te conto um cheiro

terça-feira, 4 de maio de 2021

candeeiro

 as luzes dos teus cabelos a alumiar meus caminhos

só tenho medo de, sem querer, acabar por...

me incandear a vista.


domingo, 11 de abril de 2021

em casa

 estou lendo um livro que se chama

como desenhar pássaros

eu não sei voar

mas estou aprendendo  a fazer

minhas próprias asas


 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

quero gosto de fruta tirada do pé

num quero suco de pozinho não

quero chupar até o caroço

depois rebolar no mato

lambuzada molhada

lamber os dedo

dividir contigo esse doce azedo

é assim que quero

com sinceridade de fruto

que intenciona a semente

[construiremos um novo mundo]



dentro de mim corre um riacho

quando é tempo de estiage

ele seca de num ficar uma lágrima sequer

agora se o inverno é bom

em janeiro já tem água

nessa época

quando é de madrugada eu acordo pra sonhar

molho antes de tudo os dois pés

um pé pede licença e o outro pede a bença

na correnteza

passa peixe, desejo, passa seixo, passa vontade

e passa até segredo

tem o que fica pra trás 

e o que vai ficando pra frente

sim, eu sei

há algo naquele segredo

que ainda não ouso tocar

reconheço com respeito

pedra pequena que sou 

frente esse imenso lajedo

e não apresso, nem adivinho

calma, observo a água passar

quero sem despertador

ouvir o galo cantar

e quando é de manhã cedinho

ainda molhada 

o primeiro mijo do dia

vai descendo quente de dentro de mim

vou lembrando a afluente sou

e então 

e então 

eu deixo ir

embalagem



fruta a gente chupa até o caroço

e quando acaba rebola no mato

com a simplicidade de quem faz parte

caroço é semente de futuro

quanta ancestralidade

há num caroço coberto pelo fruto?


comida enlatada não tem caroço


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

não dou conta de tudo que a cabeça pensa
raspo o cabelo e faço dele uma oferenda
recebo em troca o vento lambendo minha mulera
como um portal que me abre
sinto
não mais a vontade de tirar leite de pedra
raiva sim da vida ódio fúria um fogo que sobe dos peito até a garganta
e ainda assim querer esse negócio
desejar
por a boca comer
dar continuidade
isso que chamam de viver
piscar lentamente como quem
mesmo atrasada
não vai perder o ônibus da viagem
troco de pele só porque sinto saudade
não quero mais comigo esse medo da morte esse medo da vida
cobra de duas cabeças que sou
são muitas as possibilidades
dobrados os caminhos
também as armadilhas
respiro
acendo uma vela
buscando iluminar as estradas que carrego por dentro
de olho fechado
ewa me diz onde pisar
e quando piso é firme
mas com imensa delicadeza

perdão todo esse palaviado
é só uma oração
mais uma vez tentando fazer as pazes com as palavras

que exu me deixe dizer
e sair
quando eu bem entender