escrever com o teclado é doideira isso tô no inicio parece que as palavras não vão sair tenho um de javu pra frente a sensação de que vai acontecer aquilo lá na frente aquilo que já conheço bem a sensação e me doeu então mas penso mais uma vez posso driblar o destino fazer diferente, sim? ilusão ou verdade não sei nessa altura do campeonato os dias são quase todos iguais se diferenciam em intensidade e crueldade e inércia e vontade de sair de casa e não saber não ter certeza se amanhã quando eu acordar vou receber alguma notícia muito triste desesperadora agora é noite me preparo pra dormir escrevo só pra quebrar a rotina e canalizar essa energia minha gata matou um vagalume que entrou no meu quarto poderia fazer uma metáfora mas não quero não consigo respondo uma mensagem antiga juro pra mim verdade não lembro meus sonhos dormidos os acordados eu lembro de alguns da vontade de estar viva daqui um ano daqui oitenta anos minha vó me deu a herança da boa memória tecnologia de sobrevivência engraçado que quando escrevi sobre ela foi falando de quando ela esqueceu meu nome contradição ou talvez eu tenha ficado um pouco chateada com isso olhar de frente pra minha pequenez geralmente não me causa a sensação de que tem um cabelo na minha língua bem lidar secularmente com todas essas mortes matadas gera um buraco tão grande dentro da gente e aí usar esse espaço pra cuidar da terra cultivar outras coisas gerar fruto gerar semente que é injusto é mas poucas são as alternativas seguir acreditando ou não risco a parede fazendo um feitiço é segredo ainda mais tarde te conto um cheiro
sábado, 8 de maio de 2021
terça-feira, 4 de maio de 2021
candeeiro
as luzes dos teus cabelos a alumiar meus caminhos
só tenho medo de, sem querer, acabar por...
me incandear a vista.
domingo, 11 de abril de 2021
em casa
estou lendo um livro que se chama
como desenhar pássaros
eu não sei voar
mas estou aprendendo a fazer
minhas próprias asas
sexta-feira, 2 de abril de 2021
dentro de mim corre um riacho
quando é tempo de estiage
ele seca de num ficar uma lágrima sequer
agora se o inverno é bom
em janeiro já tem água
nessa época
quando é de madrugada eu acordo pra sonhar
molho antes de tudo os dois pés
um pé pede licença e o outro pede a bença
na correnteza
passa peixe, desejo, passa seixo, passa vontade
e passa até segredo
tem o que fica pra trás
e o que vai ficando pra frente
sim, eu sei
há algo naquele segredo
que ainda não ouso tocar
reconheço com respeito
pedra pequena que sou
frente esse imenso lajedo
e não apresso, nem adivinho
calma, observo a água passar
quero sem despertador
ouvir o galo cantar
e quando é de manhã cedinho
ainda molhada
o primeiro mijo do dia
vai descendo quente de dentro de mim
vou lembrando a afluente sou
e então
e então
eu deixo ir
embalagem
fruta a gente chupa até o caroço
e quando acaba rebola no mato
com a simplicidade de quem faz parte
caroço é semente de futuro
quanta ancestralidade
há num caroço coberto pelo fruto?
comida enlatada não tem caroço
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
não dou conta de tudo que a cabeça pensa
raspo o cabelo e faço dele uma oferenda
recebo em troca o vento lambendo minha mulera
como um portal que me abre
sinto
não mais a vontade de tirar leite de pedra
raiva sim da vida ódio fúria um fogo que sobe dos peito até a garganta
e ainda assim querer esse negócio
desejar
por a boca comer
dar continuidade
isso que chamam de viver
piscar lentamente como quem
mesmo atrasada
não vai perder o ônibus da viagem
troco de pele só porque sinto saudade
não quero mais comigo esse medo da morte esse medo da vida
cobra de duas cabeças que sou
são muitas as possibilidades
dobrados os caminhos
também as armadilhas
respiro
acendo uma vela
buscando iluminar as estradas que carrego por dentro
de olho fechado
ewa me diz onde pisar
e quando piso é firme
mas com imensa delicadeza
perdão todo esse palaviado
é só uma oração
mais uma vez tentando fazer as pazes com as palavras
que exu me deixe dizer
e sair
quando eu bem entender