domingo, 11 de abril de 2021

em casa

 estou lendo um livro que se chama

como desenhar pássaros

eu não sei voar

mas estou aprendendo  a fazer

minhas próprias asas


 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

quero gosto de fruta tirada do pé

num quero suco de pozinho não

quero chupar até o caroço

depois rebolar no mato

lambuzada molhada

lamber os dedo

dividir contigo esse doce azedo

é assim que quero

com sinceridade de fruto

que intenciona a semente

[construiremos um novo mundo]



dentro de mim corre um riacho

quando é tempo de estiage

ele seca de num ficar uma lágrima sequer

agora se o inverno é bom

em janeiro já tem água

nessa época

quando é de madrugada eu acordo pra sonhar

molho antes de tudo os dois pés

um pé pede licença e o outro pede a bença

na correnteza

passa peixe, desejo, passa seixo, passa vontade

e passa até segredo

tem o que fica pra trás 

e o que vai ficando pra frente

sim, eu sei

há algo naquele segredo

que ainda não ouso tocar

reconheço com respeito

pedra pequena que sou 

frente esse imenso lajedo

e não apresso, nem adivinho

calma, observo a água passar

quero sem despertador

ouvir o galo cantar

e quando é de manhã cedinho

ainda molhada 

o primeiro mijo do dia

vai descendo quente de dentro de mim

vou lembrando a afluente sou

e então 

e então 

eu deixo ir

embalagem



fruta a gente chupa até o caroço

e quando acaba rebola no mato

com a simplicidade de quem faz parte

caroço é semente de futuro

quanta ancestralidade

há num caroço coberto pelo fruto?


comida enlatada não tem caroço


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

não dou conta de tudo que a cabeça pensa
raspo o cabelo e faço dele uma oferenda
recebo em troca o vento lambendo minha mulera
como um portal que me abre
sinto
não mais a vontade de tirar leite de pedra
raiva sim da vida ódio fúria um fogo que sobe dos peito até a garganta
e ainda assim querer esse negócio
desejar
por a boca comer
dar continuidade
isso que chamam de viver
piscar lentamente como quem
mesmo atrasada
não vai perder o ônibus da viagem
troco de pele só porque sinto saudade
não quero mais comigo esse medo da morte esse medo da vida
cobra de duas cabeças que sou
são muitas as possibilidades
dobrados os caminhos
também as armadilhas
respiro
acendo uma vela
buscando iluminar as estradas que carrego por dentro
de olho fechado
ewa me diz onde pisar
e quando piso é firme
mas com imensa delicadeza

perdão todo esse palaviado
é só uma oração
mais uma vez tentando fazer as pazes com as palavras

que exu me deixe dizer
e sair
quando eu bem entender

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

feixe

 ainda não sei o que quero dizer

tenho medo de como minhas palavras podem ser recebidas

percebo isso com muito esforço

o que me parece sempre é que

é besteira o que tenho esperado tanto tempo pra falar

medo de não me sentir querida

medo de não me sentir bem-vinda

assim como fora tantas vezes

medo de sentirem pena de mim

de acharem que sou fraca e a qualquer momento

posso quebrar 

como copo de vidro que cai no chão 

esses medos vem de mão dadas com tantos outros

como uma constelação 

formam uma rede de pesca

e pescam tudo que tenho pra dizer

..,

mas por sorte

vez ou outra escapa 

um peixe


 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020