sábado, 19 de junho de 2021

como caça e caçador


 dentro de mim




 na mata ando descalça

só pra aumentar a proximidade

nossa comunicação

explico aos que tentam me proteger com xinelos

eu sei pisar

sem medo de espinho

porque esses fazem parte

e quando as urtigas me tocam 

não acho ruim 

se penso nelas nesse momento

é no gostoso caldo

que posso fazer

.urticante

me sinto quebrada
letras que não formam palavras
na ponta de minha língua


domingo, 6 de junho de 2021

registro triste

aos 2/3 anos eu morava na vila da bosta, com minha mãe e meu irmão. eu gostava de morar lá, também porque tinha uma amiga muito muito legal. ela era mais velha que eu, então lembro de a admirar muito, pensar quando crescer quero ser esperta assim. a gente brincava de colégio na sua cadeirinha verde. nessa época, eu ainda não estudava. ela morava na casa ao lado da minha e todo dia ela vinha pra minha casa ou eu ia pra sua.
acontece que chegou uma época que a mãe dessa minha amiga decidiu se separar e separou. mas o caba safado vivia de azucrinar a vida delas (mãe, filha e avó). num dia de sol sendo manhã ou tarde, ele foi lá na casa delas e chamou. ninguém foi atender porque já sabiam quem era. passado um tempo, ele aperreando muito, minha amiguinha foi até a área pra vê-lo através do portão e a avó foi atrás pra levá-la de volta pra dentro. aí que quando chegaram lá, ele tava armado, e matou vó e filha. assim, de tiro, na área onde a gente brincava. depois apontou pra própria cabeça e outro tiro.
depois daí há duas versões, a de que eu tava em casa com minha vó que me botou nos braços assustada e foi comigo até a rua, onde vimos toda a cena.
e na outra estava com minha mãe, que sozinha foi ver o que houve e horrorizada teve o maior cuidado pra que eu não visse nada.
bem, de fato, não tenho memórias imagéticas do ocorrido em minha lembrança. mas lembro muito do depois, em verdade às vezes acho que minha primeira amiga e seu assassinato são as primeiras memórias que tenho da vida. mas não sei, é difícil achar a ordem cronológica quando não são lineares os pensamentos e a elaboração de memórias. mas sem dúvidas foi meu primeiro contato com a morte, em que pensei, ao meu modo e idade, ativamente sobre a morte, descobrindo seu significado. lembro de sua mãe em nossa casa chorando muito nos dias que se seguiram. lembro que ganhei ruas roupas, brinquedos e a cadeirinha verde que eu tanto gostava, mas depois minha mãe devolveu a maior parte, pois não conseguia guardar o peso todo que carregavam aquelas coisas. pude ficar então só com a cadeirinha verde e sua motoca.
brinquei muito na cadeirinha verde sem minha amiga, mas era inevitável lembrar dela sempre que eu sentava naquela cadeira, lembro de às vezes pensar nunca mais vou vê-la e me perguntava por quê, era muito estranho aquilo.
depois de um tempo a mãe de minha amiga foi morar no interior pra reconstruir a vida. e nós, um ano depois, nos mudamos também, não sei se por isso ou se pela peregrinação da vida de aluguel. talvez ou dois motivos.
tenho tentado então fazer o exercício de elaborar sobre essa memória. quero guardar comigo a memória de minha amiga thais, em respeito a sua vida. e refletir com consciência sobre todos os efeitos que essa situação teve em minha vida.
o pavor em qualquer sinal de briga, os vômitos, o choro, o nervosismo. acho que passei anos tendo um tipo de estresse pós traumático e só hoje percebo com nitidez. mas em outro momento, talvez, eu falei mais sobre..

o que achei no mínimo curioso foi que hoje às 00h09, acordei assustada de um sonho e aproveitei para mijar. depois do mijo não consegui mais dormir. lembrei assim, do nada, de thais, de sua breve vida, e me deu vontade de pegar o celular pra escrever esta história. eu nunca pego o celular de madrugada, mas conversei comigo e me convenci, era um motivo muito merecedor. escrevi. depois tornei a dormir. aí que acordei ainda com a história na cabeça, liguei pra minha mãe pra ouvir suas memórias sobre o ocorrido. nisso ela lembra, hoje, dia 6 de junho, faz 20/21 anos desde de aquele dia.

doideira.

  eu e meu amigo vizinho joão vicente brincando na motoca que ganhei de thais

segunda-feira, 31 de maio de 2021

a gente planta o que colhe ou colhe o que planta?

 poderia te dizer que se não fosse como foi, não seria, mas não digo. tem dia que é maior, tem dia que é menor. tem dia que chove e tem dia que à noite mesmo fazendo 19 graus sinto calor, durmo sem roupa, acordo com a garganta coçando por não ter me protegido do frio que fazia fora, por dentro tudo quente, não precisei. 

amanhã já é outro mês, ouço milton nascimento e lembro relembro todo meu crescimento nestes últimos anos. meu paladar já não é mais o mesmo, tampouco meu olfato, me falta certa sensibilidade que antes tinha de muito nesses dois sentidos. acredito que por isso minha audição se mostra mais aguçada, tento cheirar e sentir gosto com os ouvidos agora. 

meu amigo me liga, planejo com ele um carnaval em olinda no ano de 2023. uma pausa na pausa.

volto sem saber o que queria aqui dizer. acho que, em verdade, não queria nada. tenho exercitado aparar no tempo o hábito de escrever. hábito que com o passar dos anos fui aos poucos perdendo, tantos foram os motivos. agora faço o esforço de recuperar, não só porque colho hoje os frutos das árvores semeadas muitos ontens atrás. mas sobretudo porque quero dar continuidade a essa comunicação que estabeleço comigo.

com os olhos nos riscos-feitiços de pemba que fiz na parede, aceito, tem dia que não tenho nada pra dizer. e acolho as palavras que saem, ainda assim.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

 já morei em muitas casas, mais de 15 ao longo dos meus 23 anos
em 5 diferentes cidades
depois que nasci nunca mais passei fome
o meu primeiro trabalho remunerado foi aos 16 anos 
tenho mãe e tenho pai
no meio da estrada eu sempre reparo que é bom sentir saudade
tenho facilidade de me sentir em casa nos mais diversos lugares
uma viagem
as vezes lembro o dia de minha morte
e as vezes sinto vontade de adivinhar o dia de meu nascimento
ata é minha fruta preferida, mas na paraíba se chama pinha 
escrevo poesia pra inventar quem sou
e achar em mim aquilo que algum dia ainda almejo ser
anos atrás eu fazia uma trança mais bonita com as palavras
não ligo
daqui a três anos eu vou dizer que sobrevivi a uma pandemia
e mesmo assim 
sem sorriso no rosto
vou me lembrar desse dia