segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

quero olhar com verdade. tenho vontade muita de ver o corpo nu dos medos nossos, as inseguranças, aquilo tudo que não ousaríamos dizer com a boca. preciso ter cuidado com as ilusões que vez por outra podem me pousar a pele, por isso quero olhar com verdade. verdade de gente que é bicho, que come, que caga. quero querer não ser outra coisa, me transformar sempre dentro daquilo que sou, nem antes, nem depois. se deliro quero com isso fazer uma pintura, uma poesia, nada grande demais que possa nos confundir, nem pequeno demais que possa nos menosprezar. mas no cotidiano dos dias quero o pé pisando no chão, vento na cabeça, mão catando feijão, por do sol de tardezinha, desejar na lua nova, comer até encher o bucho, sonhar de madrugada, acordar inspirada, subir ladeira, quero olhar com verdade. pois, saber que é verdade também o que sinto por dentro, a coceira embaixo do peito, a vontade de piscar longa e pausadamente toda vez que o coração acerola.
te encontrar anos depois de em meus delírios inventar o sabor de teu corpo. com atenção conhecer tuas mãos, com cuidado conhecer o teu quarto, comer da tua comida, beber de tua água. chamar nossos monstros pra um encontro, olhar nos olhos, abraçá-los. encarar de frente os limites colocados, ter vontade de fugir, escolher ficar. deixar a lágrima cair enquanto te escuto dizer palavras fáceis de ouvir. engolir a lágrima enquanto te escuto dizer palavras duras de sair. quero olhar com verdade, a simplicidade de tu tirando um caju tão lindo no meio da rua, nós chupando junto.
não quero pedir desculpa pelos se, não pretendo me perder em caminhos não caminhados, nem imaginar ao ponto de inventar quem não existe pra gostar ou desgostar. quero olhar com verdade, e me esforço muito pra fazer esse movimento. agradecer pela disposição e coragem de olhar tão de perto, abrir as portas, e conhecer detalhes miúdos desse grande mistério que é viver. transver.

sábado, 15 de janeiro de 2022

 tem dia e tem noite
no meio as vezes tem um bocado de coisa
penso mais do que faço
o que falo tá no meio
terminar o ano dormindo
começar o outro ano sonhando
amanhã não me espera
embora eu espere por ela
sentir com a cabeça
rei de espada dentro dos peito
conhecer demora
todas aquelas cidades alagadas
teus olhos molhados
desse lado seca braba
de minha boca, nem saliva
mas não apresso
como se a partida num ficasse 
a cada dia mais perto 
quero ter a paciência de um tempo
que não se conta pelas horas de um relógio
e tudo muda 
de caju romã acerola 
crescer pra dentro demora
mais até que conhecer
não dá pra botar no umbigo o mundo
nem tentar qualquer outra coisa mais imunda
de qualquer forma
o caminho será injusto
por isso desejo tanto preparo 
e ainda assim
deixo aberto os poros de meu rosto
para que entre com calma
no caminho inverso ao das espinhas
olha pra mim não
olha pra fora 
conta estrela areia flor 
nenhuma novidade
quero o simples muito mais que o exagero
....vontade sincera

pois tá
até depois
depois
e depois 

com sentimento de muitos ontens antes de ontem,

(31.12.2021)

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

a noite veio uma mão arrancar uma vértebra de minha coluna
pedi alto que não tirasse 
ainda quero te ver muitas vezes
tantas miudezas 
no intervalo de algumas horas
quem diria que com tão pouca surpresa
vai acontecendo o inesperado
já adivinhado e profetizado por muitos ontens
lágrimas de beber a molhar os dias
encher os baldes e dar descargas

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

agradeço

p/ todes que amo

aí que me dá uma vontade de dizer que te amo
não que eu nunca tenha o feito
já fiz e muito o faço!
tu logo tu 
que nunca nunquinha
vai poder me dar aquilo que almejo 
fantasio desejo
não um eu te amo
num é isso não
amor é bicho fácil de se dar 
ouso dizer até de acontecer
mas aquilo outro lá
que ainda não tem nome pra mim
isso tu nunca vai dar 
e mesmo assim 
consciente enfim do que me permeia
me vem essa vontade
que felicidade curiosa 
ter coragem de atravessar as portas
é por isso que quando vem essa vontade danada
eu digo que te amo 
porque sei
que paralém da minha fantasia
há alguém
olho pra esse alguém e me reconheço:
eu não sou tu! pois bem

te amo porque me reconheço


e meu coração acerola



poeira fina por toda casa
por toda rua
sonhar subindo altas escadas
cedo acordar varrer a calçada
o tempo cortando a pele formando novas rugas
as primeiras de todas as outras que um dia virão
um toque perto do peito
escuto fundo sentir no pelo
o que mata, eu semente pequenina de mato
outros pés nascendo perto
do meu pé douvido
a palma a planta do pé
penso
longe ainda tanta coisa cabe
na distâncias das cidades
mas o entendimento é esse
que o fruto do caju é o cajueiro
e o do cajueiro, a castanha
nada de extraordinário
se meu coração acerola
vermelhinha a bater
na lembrança de um sabor e outro
toque doce-amargo

terça-feira, 2 de novembro de 2021

como um desejo ao contrário 
busco a palavra
cavo um buraco atrás das pistas
fósseis de delírios passados
minhas mãos aprendizes do tempo
fecho os olhos pra sentir o sol atravessando meu corpo
é desejo de vida o que os pés sentem ao tocar a terra
ao assentar na pedra dilapidada pelo vento
pelas fogueiras dos festejos
te escrevi naquele dia 
te escrevo tantos são os dias
tu que sou eu 
eu que as vezes não sou tu 
engraçado ver o ritmo das plantas
dançando lentas agitadas paradas
crescendo ou deixando de crescer
tem uma hora que chega atingiu o ponto
que delícia é atingir o ponto
mas ser bicho gente é nunca chegar
sempre ir sempre ir 
e tem hora de sentar e tem hora de deitar
sonhar todos os sonhos impossíveis 
realizar possibilidades não sonhadas também tem o valor de fruta no pé madura
docinha gostosa
me lambuzo só de pensar 
plantar feijão e ver crescer os caroço colher cozinhar e comer
isso é desejo primeiro 
desejo fundador
por a boca sentir o gosto comer 
encher o bucho 
e aí então saber o que fazer com as mãos
os buracos que valem e os buracos que não valem
cavo pra achar a palavra
não acho
boto uma semente rasinha 
5cm da superfície
o simples é tão grande me assusto
o extraordinário é qualquer coisa 
não me espanto 
o desejo ao contrário as vezes é só desejo
que tem medo de ser 
acho graça
essa coisa que é gente 
gente é assim dorme pra sonhar
e quando acorda não lembra 
e se lembra depois esquece
e se não esquece não entende
e se entende
vira ao contrário
acho graça
semeio no raso a semente pra vingar 
pensando e se 
amanhã chover 
pode ser que 
o barulho dos pingos da chuva 
caindo na bacia 
me lembrem o que eu não deveria ter me esquecido
ter me escondido 
tomara


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

não deixar assorear os cílios dos rios de nossa memória 
juntar as sementes planejar o novo
inventar um futuro onde possamos existir
com vida muita comida muita saliva
guardar as sementes das nossas plantas nativas
guardar as sementes de nossas paixões
guardar as sementes de cabra de carneiro de galinha
guardar as sementes de nossos sonhos
o que há de vir precisa ser contextualizado 
com o que pulsa dentro e fora dessas abertas veias de nossa terra
plantaremos água
e beberemos com as mãos os dias que virão
fartos de saúde de gente de trabalho
haverá ainda muita mágoa muita mágoa
cuidada também nos rios de nossa memória
pra que não volte por trás nos amarrando as pernas
para que saibamos localizar nossos sentidos
os matos nos indicarão significados 
brotarão tantos olhos dáguas das sementes plantadas
que não nos sentiremos desguardados
comer semente germinada assistindo o por do sol
plantar mundos novos também por dentro
avisando a microbiota da barriga
que agora vai ser assim
com muita vida muita comida muita saliva